Acima do bem e do mal repousa todas as coisas que concernem a natureza humana.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O mundo não é feito de rosas

           O mundo é feito de preconceitos. Feito de idiotas que acham serem úteis seus comentários carregados de preconceitos, seus olhares canibalizados de idiotas inúteis e que se acham inteligentes o suficiente para defenderem bandeiras fracassadas, tanto na direita quanto na esquerda. O mundo carregado de idiotice é uma coisa que independe de partidos políticos, crenças e mesmo de nacionalidade.

          Quando os sírios chegam à Europa pedindo um pedaço de comida e uma roupa de frio, são os húngaros que fecham as portas. São os gregos que deixam as crianças morrerem na praia e são os ingleses e franceses a primeiro torcerem o nariz à humanidade. Os mesmo ingleses e franceses que por anos dominaram a região como se fosse um parque de diversões.

          Hoje esses idiotas acham ter o direito de advogar uma identidade nacional num mundo globalizado como forma relevante de união nacional, quando na verdade, tudo o que eles fazem é baseado no ódio dos demais.


         Foi assim que os americanos elegeram Trump, no alto da sua estupidez, elegeram um representante do backside novaiorquino, investidor multimilionário que defende o setor empresarial, sonegador confesso de centenas de milhares de dólares em impostos, para fazer a "America great again". Como se fosse possível voltar à década de 50. Foram os racistas e xenofobicos do Sul, foram os trabalhadores desiludidos do cinturão da sucata do nordeste americano e os pais de família de classe média que elegeram o Trump.


       Não, não defendo a Clinton... Pelo contrário, ela representava apenas a continuidade causticante de um governo morno Obama, e seria apenas um estilo de governar de continuidade dos lobistas de Washington.


      Mas o mundo respirou fundo quando descobriu sua estupidez.


      Essas mesmas pessoas estúpidas acham que as redes sociais as tornaram mais inteligentes, que postar a sua vida pessoal no Snapchat ou no Twitter as fizeram mais amadas e que o Facebook se tornou um oráculo de discussões. Meus pensamentos são centrados em uma base muito simples, se você reproduz um conhecimento sem dissecá-lo, você é apenas um papagaio.

      De toda forma, o mundo não é feito de rosas. O mundo é feito de preconceitos, feitos de preconceitos entre os próprios irmãos de uma mesma comunidade, feito do ódio entre gêneros e nações. O ódio ao diferente e na aceitação do novo.

      Sobretudo agora, eu sei que o mundo que me prometeram desapareceu e apenas uma triste lembrança é o que sustenta a convicção de que tudo vai melhorar. No final, o mundo é um grande Black Mirror.

A plutocracia brasileira

      A plutocracia dominou por completo as esperanças de um futuro melhor após essa  época de adversidades, o golpe parlamentar orquestrado pelo Congresso Nacional convenceu a todos nós que a camarilha de políticos liderados pelo PMDB apenas deseja apropriar-se do Estado para seus fins mercantis-financeiros.

     O Estado foi vendido de propósito depois de uma série de irresponsabilidades e assassinatos legais contra a ordem institucional. Renego completamente a presença de um poder judiciário, considerando agora que a justiça é parcial e cega quando conveniente. O Supremo Tribunal esconde bandidos de toga, o Congresso Nacional, bandidos de terno e Temer representa o mundo carcomido do passado. É um governo sem governabilidade, um balcão de negócios de centenas de bandidos que ganham fortunas enquanto cortam a aposentadoria do trabalhador brasileiro.

      Congelaram as despesas do país ao mesmo tempo que aumentaram seus próprios salários, condenaram o futuro de milhares de jovens, homens e mulheres, aos interesses dessa geração envelhecida de ladrões. Hoje eu não tenho mais esperanças em qualquer fim democrático num sistema falido e corrupto, onde as instituições representam uma grande fazenda da qual nós somos a senzala. O Brasil não é um país do futuro, é um país que foi feito no presente. A questão é: Aceitaremos que roubem ainda mais dos nossos sonhos ou lutaremos contra isso?


      Meu desencantamento com o marxismo-leninismo passou no momento que eu vi que a última pessoa viva da Guerra Fria morreu, matando por final o século XX. A morte de Fidel Castro me foi didática de como as pessoas podem ser ao mesmo tempo controversas e amadas ao mesmo tempo. De toda forma, é mais legítimo um poder instituído pelas armas nos ideais revolucionários de justiça social do que um estado apropriado por uma corja de bandidos.

     Hoje me reafirmo como  socialista, e mais do que socialista, hoje renovo meu compromisso de lutar por uma sociedade justa e igualitária. Mesmo que seja somente eu a tomar essa bandeira, o meu grau de indignação não me permite que os algozes de nossa juventude sejam felizes em seu roubo perpétuo de nossas esperanças. Quem rouba merenda de crianças, a insulina dos hospitais merece realmente ser extirpado completamente da nossa sociedade.



    O Estado é o maior vilão porque ele não pensa e raciocina, ele apenas toma e serve aos interesses de grupos e agentes econômicos bastante definidos. Estou mais do que convencido de que a democracia é o câncer que instituiu a vontade de poucos sobre a maioria. Socialista ou não, escolha conscientemente, e esse país que queremos?


     FIM AO MICHEL TEMER! FIM AO GOVERNO ILEGÍTIMO DOS ASSASSINOS DE CRIANÇAS! ELEIÇÕES DIRETAS OU NADA! O Estado Brasileiro morreu no momento que as maldades começaram a massacrar o seu próprio povo.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Uma estrada

       Sempre que ficar perdido, pegue a estrada. Jogue-se para longe e conheça um lugar distante, com sei lá, o Goiás. No Goiás que encontrei meu amor escondido sobre as árvores retorcidas do Cerrado, comi galinha caipira e senti o gosto do arroz com pequi.


      Estive em suas águas cristalinas, visitei seus bosques e deixei tudo para o alto quando estourei um cartão de crédito de brincadeira. Bebi cerveja quente, ouvi música ruim e amei intensamente todos os dias. Foi no Goiás que me perdi de novo


      Andei a 160 km numa BR, matutei, briguei, comi tilápia frita a despeito de odiar peixe e fui inconsequente... Até porque não valia a pena ser aristocrático com a pompa artificial de um bom brasiliense. E vivi até quando não pude, explorei o Itiquira, banhei-me em suas águas, e vi a cachoeira.


Encontrei o meu amor nesse caminho perdido e desejei estar perdido até onde pudesse. Mas não, não pude, pois a vida real sempre nos prende para longe da fantasia. E a fantasia é desejar partir de novo para onde não deveria ser encontrado. Te odeio Brasília, com seus pilotis de concreto, com suas pessoas toscas e mesquinhas, suas tesourinhas que cortam pessoas, seus eixos sem nexo e seus apartamentos minúsculos e sem graça.

Odeio você, tal como odeio os seus políticos, os seus funcionários públicos com os seus carros importados de prestações para serem pagas daqui vinte gerações, seus garotos de academia que fumam maconha no Pontão e prostituem meninas de cabeça vazia. Odeio você tal como odeio seus velhos necrófilos que roubam a juventude dos poucos que querem viver, dos seus concurseiros aos seus policiais ignorantes e de seus universitários que se enojam com mesquinharias.

Odeio pensar que toda essa gente que morreu construindo uma cidade no meio do nada teve a coragem de desistir e se acomodar numa cidade tão frívola e tão interiorana que não merecia ser chamada de capital. Odeio por completo seus jornalistas, prostitutos intelectuais, seus mestres e doutores de diplomas.


Odeio seu pastel queimado da Rodoviária feito com óleo diesel, os seus bares caros sem graça, seus pontos turísticos de concreto e a arquitetura mal-feita de Niemeyer. Odeio ademais pensar que nasci nesse inferno que faz o deserto de agosto quando não tem um pingo de água, quando temos um governador de merda que rouba cada vez mais a esperança de nossos sonhos e dos sensacionalistas que iludem os pobres coitados nas igrejas da periferia.

Odeio os que se fazem de coitados pedindo dinheiro na Rodoviária, odeio os pobres coitados que pedem garrafas de vinho nos restaurantes ou os ignorantes advogados que se acham senhores da razão quando são primeiros a corromper a constituição.


Pois que digam o que digam, odeio essa prisão chamada Planalto Central. E odeio nunca estar com forças para fugir disso, pois a chave da minha sela se perdeu no riacho do Itiquira.

Soneto às duas da tarde


O motor de um motor V8 tintila enquanto seus quatro cilindros debatem-se numa mecânica precisa de quatro tempos. A combustão da gasolina iniciada em cadeia pela vela conduz força que é transmitida pela diferencial de forma harmônica sobre as rodas através de um preciso sistema de distribuição.


A ventoinha ventila com a água do radiador todo o sistema em movimento enquanto o seu condutor aperta o acelerador ou pisa eufórico na embreagem, o câmbio e a caixa de marcha trabalham incansavelmente enquanto a bateria faz girar todo o sistema de som do automóvel e o sistema de ar condicionado acaba gotejando na pista um pouco de água, deixando um rasto surdo na pista.


O óleo do cárter deveria ser trocado depois de quase 15 000 quilometros rodados, mas pelo contrário, o dono sequer se importa com meros detalhes, e fura os sinais vermelhos para levar a pequena criança para a escola a tempo. Negligente, fala às vezes no celular, às vezes arruma o vidro e brinca com a criança. Detalhes...

O trânsito é lento, a criança se atrasa. Mesmo assim, esfria a cabeça, a menina o abraça e diz que o ama: "Entregue isso para ela"

Ela entrega um desenho e um anel. Sim, nada mais do que isso.  Mesmo estressado, ele se ajoelha diante daquela criatura e diz: "Isso é seu. Não devia fazer isso"

"Eu quero, entregue para ela. Ela te ama"


Ele a abraça e a beija na bochecha. A criança era mais sábia do que ele que tinha o triplo de sua idade. "Obrigado, você é a minha filhinha. Obrigado por tudo".

Às vezes os adultos sabem como funcionam mecanismos complicados como injeção eletrônica ou funcionamento de um motor de combustão, mas apenas as crianças têm a sensibilidade de nos lembrar que ainda devemos amar esse mundo.  As crianças são mais sábias que seus próprios pais.

Caixinha de música



Toda vez antes de dormir, ela sentava-se junto à cama, beijava a fumaça do cigarro e tirava o sutiã que a apertava. Ela olhava com olhos cansados para o vazio numa vista frívola de um apartamento no terceiro andar de um hotel. A mobília do seu quarto era antiga, de mogno pesado, sem muita graça e com um ar condicionado que fazia um tremendo barulho.

Uma orquídea cor-de-rosa namorava de maneira psicodélica uma garrafa de vinho francês pela metade. O computador carregava pela metade, ela se deitava na cama de lençóis brancos, finos como a seda, olhava para o teto com a lâmpada pendente e chorava.

Chorava porque dizia-se ser mais forte do que os outros e sempre se lembrava de ser melhor que os outros. Ela ignorava as várias ofensas que o mundo lhe impunha. Ela regojitava sua raiva ouvindo música e postando textos longos no Facebook, vez em quando ia num bar e se embriagava até não poder mais. Festas e mais festas, fumava sempre um cigarro para passar o tempo, até o que o empo passava mais rápido na intensidade de um soco.

Vez em quando dormia sem comer, vez em quando desistia de chorar, vez em quando guardava suas mágoas num cofre bem profundo. Não tinha mais o apoio da mãe, e o pai nunca foi grande coisa, amava a irmã e às vezes duvidava de si mesma.

Ela sofria calada, bebia sem se enganar e tentava deixar tudo o que sentia de lado. Sonhava morar na Toscana, sonhava viver e se apaixonar. Mas mais do que isso, sonhava em ser respeitada. Vez por outro ignorava um insulto ali ou aqui, vez por outra achava que tinha parcela de culpa. Mas não ignorava o fato como o grito surdo de um mundo cheio de barreiras fazia seu coração tremelicar.

Toda noite tinha medo de ser morta ou apedrejada como os israelitas faziam com os infiéis. Todo dia saía na rua e se tornava centro das atenções, não apenas por ser bonita com o seu cabelo louro de leão, mas porque um mundo feito de bonecos de plástico não aceitava pessoas de carne e osso.

Padrões de beleza e estética a moldavam, a torciam e a maltratavam, até que por fim, tudo o que tinha era uma garrafa de vinho barato e uma caixinha de música. Poderia ela ser uma bailarina, um violinista, física ou psicóloga, mas a vida não lhe resolveu essa sorte. Pelo contrário, vivia confinada naquele apartamento minúsculo sem qualquer expressão ou qualquer quadro que se destacasse e quanto menos tinha sossego, maior era a sua aflição.

Ela se sentia só, sentia seus ossos cansados, seu corpo cadente de carinho e um sorriso fraco no rosto, enganava-se muitas vezes. Perdia por vezes a vontade de ser feliz, até que num desses dias perdeu a chama de um cigarro.

Foi quando como um cometa que caía sobre a noite, cadente e pulsante ela encontrou-se no arrebatamento do que poderia ser chamado o amor. O que pode ser uma surpresa para uma menina com 24 anos corridos, mas às vezes tudo o que desejamos só acontece quando menos esperamos. Irritado, o coração se lacera e corrói o seu estomago, o seu fôlego se esvai.

Exasperada, ela corre de medo ao encontro do seu destino e decide viver só mais um pouco. O namorado era um zero a esquerda, com saldo negativo no banco, um carro mequetrefe, falava engraçado e não tinha qualquer tipo de expressão. Ela ainda assim o amou até onde pode, mesmo ele sendo um retardado que a machucava por completo. Por vezes eles discutiam, eles se machucavam e normalmente era culpa dele mesmo. Ela tinha paciência.

Paciência de tal forma que em todos os deslizes ela tinha decidido perdoar. Fosse porque tivesse algum afeto por ele, ou algum afeto por si; de toda forma, ela olhava para o celular, perdia tempo no Facebook e esperava ter um futuro.

Esse mundo não foi feito para sonhos, ela se lembrava disso; E por fim, numa das suas autosabotagens, seu namorado saiu com suas coisas: levou a orquídea consigo e um pouco do amor próprio. Ela ficou na varanda fumando em silêncio, não sei se chorou ou se ficou no marasmo da solidão.

Apenas foi para a cama e dormiu. Cigarro na boca e a caixinha de música com uma bailarina dançando no eixo da corda ao sol de Lago dos Cisnes. Ela ficou quieta e sonhou, teve pesadelos, sofreu com seu pai alcoólatra, com a sua mãe dependente de um casamento fracassado, de sua irmã que não via há um ano. E sofreu por não estar mais perto, e sorriu justamente por estar a frente.


O cigarro apagou, algo tinha se apagado também. Era a luz ou a chama que conduz tudo o que somos? Não sei o que dizer, só sei que eu sou o namorado canalha e ela é um anjo dentre nós reles mortais.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Perdi

Perdi a caneta
Uma pequena caneta
E com ela perdi o meu respeito
Por tudo que a despeito
Perdi sem muito jeito
O afeto que tinha por você


Perdi o confeito
Perdi o seu beijo
Perdi a chance
De ter ficado no convento


Devia ter ficado calado
Não devia ter apaixonado
Devia por namorado
Mas tudo isso é passado

Perdi o amor
Perdi a dor
Perdi a rima
Perdi e perdi


Perdi você
Perdi de novo você
Perdi a chance
De ter dito
Que te amava

Perdi o calor de seus olhos
Perdi o sabor de sua boca
Perdi o odor de sua nuca
Te perdi numa piscada
E logo perdi a esperança

Te perdi
Não quero te encontrar
Te perdi
E hoje vendi o que sentia
Para um mascate por metade de um terno
E meia fatia de queijo bolorento
Meu amor não vale mais do que o vento
E o meu poema não tem traço violento


Adeus... E adeus, Perdi a perca e a apaixonei a perdição.
Adeus, adeus, coração.