Acima do bem e do mal repousa todas as coisas que concernem a natureza humana.

domingo, 23 de julho de 2017

O sono

      Ela dorme num sono delicado de criança, ela fecha seus olhos pesados e abre a sua boca, a respiração fina toma o quarto inteiro com o abraço delicado de Morfeu numa noite de sábado. Não tinha outra coisa senão acompanhar o seu sono pesado com olhos doces e preguiçosos, tenho vergonha de ligar a luz e vou em direção à varanda.

       Revisito alguns textos, ando preocupado esses dias. Olho para a varanda de um prédio logo à frente, há um velho num dos apartamentos olhando para a rua com a luz ligada, somos dois companheiros numa noite fria de julho. Ele com sua camisa amarela e o semblante pesado, me olha enquanto sua cabeça brilha com a luz branca da lâmpada incandescente. É curioso ver como às vezes somos invisíveis.
        Gostaria às vezes de corrigir alguns erros desses últimos meses, de não ter sido tão bruto e enérgico, brigar sempre cria uma dose de arrependimentos. Sair de casa foi uma escolha prematura, mas o que havia a ser feito? Certas horas eu penso se poderia voltar atrás, mas me convenço que um homem deve assumir seus próprios erros, mesmo que não tenha força para sobreviver.

       Não ouso incomodá-la, ela está tão delicada debaixo das cobertas, sem se preocupar com o nosso aluguel que não foi pago ou porque estamos sem dinheiro para comer. Eu me sinto inútil sem meu emprego, me sinto covarde inclusive, ela que segurou todos os nossos desafios, nunca questionou o seu amor por mim. Sinto que seja verdade o que dizem, o amor é realmente mudar a alma de casa.

      Eu sou uma peça da mobília desse minúsculo apartamento, tal como o microondas quebrado, a televisão que desliga do nada ou a geladeira que faz um barulho desgraçado. Ela sabe que eu sou o porto seguro em toda essa triste alegoria que se chama de vida, e ela também sabe que representa esse papel para mim. Coragem é lutar todos os dias para tentar ser feliz.

      Nós não somos felizes, não porque não queremos, mas porque não nos foi permitido um minuto de paz. Sempre no aperto e no desafio de conseguir o dinheiro do dia seguinte, muitas vezes ficamos sem chão, muitas vezes brigamos, nos machucamos e tememos o nosso término. Eu não penso nisso com certa frequência, mas confesso que já pensei algumas vezes.

      Sim, eu realmente fui irresponsável em certas escolhas e não sei o que pensar nisso, mas o que eu sei é que inevitavelmente faria as mesmas coisas. Amar é proteger todos os dias as pessoas importantes de sua vida, eu me preocupo se as coisas irão ocorrer bem, se ela irá voltar para casa em segurança e se ninguém irá maltratá-la. Quando você namora uma transsexual é preciso ter cuidado em dobro, não porque o amor seja uma fonte inesgotável de problemas, mas num país que se mata como insetos travestis e homossexuais, a semente do machismo e da intolerância sempre pode acabar com o único suspiro de uma vida.

       Eu estou feliz por ela estar em casa, deitada e dormindo de forma despreocupada na cama que dividimos durante os nossos dez meses de namoro. Estou feliz por ela hoje não se preocupar em ter que enfrentar os leões e trabalhar até tarde para por comida dentro de casa, essa mulher é a única pessoa que conhece de verdade nossos problemas.

       Eu amo pensar que a sua transsexualidade não é um defeito, nem uma escolha, mas sinceramente, uma dádiva. Se nos encontrássemos em outra condição, possivelmente não estaríamos tão dispostos a se sacrificar um pelo outro, a ligação especial de nossa relação é um recorte de papel numa ilha de esquecimento. Hoje, o sexo é a única coisa que move os relacionamentos tradicionais, assim como o dinheiro e ambição, o casamento é um contrato, mas ninguém realmente se doa quando não se está contente com o outro. Eu sei que ela me completa da mesma forma que eu ouso dizer que eu a completo.

         É difícil tentar explicar isso para quem não compreende o significado da palavra amor, amor é um conceito universal e muito amplo, amor não tem gênero, não tem identidade, não tem sexualidade, amor é algo essencialmente puro. Ouso dizer que o amor é algo que perdemos na infância quando vamos para a escola.

          Hoje eu declaro com a mesma convicção que eu tive no início, eu namoro uma transsexual. Ela não é perfeita, ela muitas vezes me desaponta, muitas vezes esconde coisas de mim e muitas vezes me magoa. Eu sei disso, eu também sou assim, eu também não sou perfeito. O fato é que estamos dispostos a lutar todos os dias para sermos felizes, não ricos, não poderosos ou mesmo não lutamos por status, lutamos para ficar juntos a despeito de todas as pessoas contrárias. E são muitas. Mas o amor tem dessas coisas.

         Ela desapareceu essa semana por quinze horas, por quinze horas eu não tive notícias dela. Por quinze horas eu me preocupei, mandei mensagem, telefonei. Por quinze horas eu procurei todos os amigos, procurei em todos os lugares e cogitei ir para a delegacia. Eu chorei incontrolavelmente quando perdi minhas forças, eu me desesperei quado ela não voltou aquela noite e duvidei que ela estivesse viva. Achei que eu a tinha perdido.

         O sequestro é o mais perverso dos crimes porque não dá pistas de que algo ruim está acontecendo.

         O amor que trouxe tanta felicidade poderia estar enterrada numa vala qualquer no meio do nada. Namorar uma transsexual é se preocupar todos os dias se ela vai voltar viva, uma coisa que a maioria dos casais não precisa se preocupar. 

         Depois de quinze horas, ela me mandou mensagem, não sem me esboçar mais preocupações. O mundo perverso foi tirânico como uma navalha sobre a nossa jugular, ela havia sido sequestrada. Ela foi usada, foi drogada e foi maltratada por quinze horas. Quinze horas que eu não tive notícias dela, quinze horas que ela não sabia onde estava. Deus sabe o quanto eu, ateu convicto, rezei para que ela voltasse bem.

        Eu agradeço todos os dias por ela estar deitada na nossa cama dormindo como se nada tivesse acontecido, eu agradeço todos os dias por ela ter aparecido, mesmo que suja e chorando igual uma criança e me pedindo um abraço e que eu cuidasse dela. Não sei quem foi você que fez essa maldade com ela e não quero saber, eu te amaldiçoo por tudo de ruim que você fez ela passar naquele dia.

         Fui eu que a coloquei no banho quente enquanto cuidava de tranquilizar os amigos preocupados, fui eu que saí na noite fria para comprar comida sem ter tido tempo de me arrumar ou mesmo escovar os dentes. Naquele dia não consegui dormir, mas deixei ela confortável na nossa cama enquanto ela contava traumatizada toda a tortura e provação que passou naquele dia difícil. Desde aquele dia não fizemos mais amor, não porque eu não quisesse, mas meu amor por ela é muito mais do que sexo.

           Ela lutou por mim e nunca irei conseguir retribuir metade da força de vontade que ela teve por mim, então entendam, se não estou presente, se não estou sendo o que se espera de um filho ou de um amigo, apenas entendam: Eu estou cuidando dela. E todos os dias que me julgarem, pensem no quão delicado é saber que  a pessoa que você ama pode não estar viva amanhã.

           Deus, como eu agradeço por ela estar viva, mesmo depois de tudo que passamos juntos.  Agora, tenho que me juntar a ela nesse sono profundo que tão delicadamente me faz apaixonar por ela todos os dias, enquanto dormimos abraçados, nus, debaixo das cobertas pesadas nesse frio glacial que faz na cidade.

terça-feira, 27 de junho de 2017

A chuva

Bata suas asas de amor e as faça fortes.
Esqueça a ideia das escadas religiosas.
O amor é o telhado. Seus sentidos são calhas d’água.


Beba a chuva diretamente do telhado.
Calhas são facilmente quebradas
e por vezes precisam ser trocadas.


Recite este poema em seu peito.
Não se preocupe como ele soa
passando por sua boca.


Pois no calor de seus ossos
Nos contornos de suas formas
Esconde meu doce sabor
do tenro pecado.


Na sua pele macia como pêssego
Bebi o néctar do amor tantas vezes
Que me embriaguei com a chuva
que é o prazer de dormir ao seu lado.


O contorno macio de sua pele
O relevo côncavo de suas ancas
Rompe meu semblante toda vez
Quando a língua irrompe a nossa vergonha.


O gosto salgado de sua pele
do seu fechado pedaço de prazer
Resolve tomar tudo por completo


Eu te amo com todos os defeitos
E todos os prazeres. Eu beijo sua boca
Assim como beijo  a sua bunda.
Eu a mordo enquanto sobe os feronômios
E sem polimônios me apaixono por você.


Engasgo-me com a sua força rubra
Sopro por completo como uma flauta
E toco sinfonias ao seu nome.
Meu amor é intenso e você sente isso.


Você geme sem desembaraço
Você sente sem estardalhaço
O amor tão nosso que nos aquece
Nas noites geladas de inverno.


O amor é uma calha durante a chuva
É um porto seguro durante a tempestade
Sinto prazer todas as vezes

Quando digo, eu te amo.

sábado, 24 de junho de 2017

Insônia

Estou sem sono outra noite
Sem ter o consolo do abraço
Sem a paz diante dos meus olhos
Estou cansaço desse açoite

Preocupado, penso
Medito, ando de um lado a outro
Estou sem ideias, mas pior que isso
Eu estou sem sono

Fico nesse epitáfio por horas
Sem imaginar o que poderia ser ruim
Senão ficar uma noite inteira ao claro
Terrível não conseguir parar de pensar

Muitas coisas passam na minha cabeça
Desejo um gole de conhaque e talvez dois
Um trago de tabaco, e que sofrimento
É esse pra conseguir dormir!

Fico parado na janela
Conto o número de postes na minha sacada
Acho que são quinze ao todo.
A cidade está cada vez mais fria
Meu coração está gelado
Assim como o ábaco faz contas
Meu cérebro dá giros.

Estou totalmente sem sono.
Estou com frio
E estou sozinho.
É assim que sempre foi a vida.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

O vento

       No convento da igreja, onde a cruz vermelha esconde o sofrimento e o medo, dois padres discutem o significado da vida. Um deles responde:

       "A vida é produto de nossa fé, do amor e do perdão ao outro. Sem isso não somos cristãos".

        O outro padre medita, silenciosamente, degusta um pedaço de pão e beberica um pouco de vinho:

        "Não sei se a vida responde aos pecados, mas sei que nossa mocidade e velhice deve-se procurar ser pio e justo antes de tudo"

       Olharam para a estátua de Santo Agostinho. Foi tudo por água abaixo. Na mocidade, o santo não
conseguiu ser pio e desvencilhado do pecado e na velhice respondeu aos seus erros postulando
um conjunto de ideias para Igreja Católica sem no entanto responder o grande significado da vida.

        O manto vermelho do Santo Sepulcro escondia o sofrimento de um pobre carpinteiro, escolhido no meio do deserto, em meio à fome e o frio por quarenta dias, enquanto Yeshua meditava com o diabo.

       "A perdição está no  orgulho. Está  na luxúria e no preconceito".

        O primeiro padre medita  e o sino toca. A missa e a congregação se reúnem e no bastião do concílio do Vaticano, os fiéis sentam-se em seus lugares.

        O convento beneditino se une à cidade, na procissão de almas, o andar lento corresponde à velocidade da vida. Sem ter escolha, a procissão prossegue e encontra as almas perdidas da cracolândia, passa por frente da luz vermelha dos motéis e das prostitutas.

       Os fiéis julgam, insultam com os olhos, silenciosos sob a luz das velas e das orações. aquilo incomoda os dois padres:

        "O pão nosso que nos daí hoje", o primeiro padre corta o pão e entrega a um mendigo.

        O mendigo faminto o abraça com as roupas sujas e o padre não se incomoda. Os fiéis o julgam por sua caridade, os mais fanáticos seguem o seu gesto e dividem o pão aos mais pobres.

          "Esse é o corpo de Cristo. Perdoai nossas ofensas".

          O segundo padre anda com uma vela na mão e  retira da escuridão um cachorro perdido. Ele o abraça e o leva consigo.

          "Seja na Terra como no Céu".

          Quando o cortejo passa na pista, os carros param, não há buzinas nem insultos, são homens santos antes de tudo. Quando caminham descalços pelas vielas, eles se calam sem ter medo nos olhos.Eles são católicos e  seguem a luz das estrelas na metrópole cheia de sombras

           A catedral beneditina está muito longe, mas os dois missionários conduzem aquele rebanho
De velhas senhoras e de fiéis católicos, até onde menos se espera: ao lado mais esquecido da cidade.

         Ali encontram-se homens santos e as mulheres da vida. Um ao seu turno se olham sem se falar. Os padres meditam, os fiéis julgam: O primeiro padre entrega um pouco  de pão à uma prostituta sem falar nada:
         "Perdoai nossas ofensas", diz sem cerimônia. Ninguém repete o que o padre diz.

         O segundo padre, não satisfeito, conversa com uma travesti:

         "Boa noite, minha filha.  Está frio hoje, Você quer um pouco de vinho?"

          A travesti encara o cortejo com estranhamento, mas diante da generosidade do padre, beberica um pouco do vinho, ainda um pouco chocada com os olhares dos fiéis. Os fiéis ficaram horrorizados quando o padre entregou um pouco de vinho santo à travesti.

         "Tenham uma boa noite e tomem cuidado, minhas filhas, a cidade está perigosa".

           Os dois padres andaram mais à frente do cortejo, debatiam, sem dúvida, o que significava aquele cortejo. Seguiram em direção à Nove de Julho para a Arquidiocese beneditina rezar a missa. No caminho, um dos padres falou:

         "Quando Jesus foi castigado na cruz santa, em seu leito de morte ele disse: "Amai uns aos outros como a ti mesmo". Jesus era um pobre carpinteiro de uma família humilde que sofreu para nos mostrar o caminho, nós louvamos o seu nome porque ele trouxe uma mensagem muito importante para nós: Paz."

         "Alguns entre vocês não entenderam o porquê dessa procissão, nem porque eu ter repartido o pão e o vinho com mendigos e prostitutas. Eu fico triste em saber que a sua solidariedade não se estende a todos nossos irmãos e acho isso bastante grave como cristão. Jesus se cercou de leprosos e prostitutas, sem esperar nada em troca, salvou os mais pobres do seu terrível destino."

         "Quando dei o vinho  para aquela travesti e pedi para que perdoasse nossas ofensas é porque eu queria me desculpar por sempre sermos tão perversos com as pessoas mais vulneráveis. Aquela menina está na rua não porque deseja ou porque seja promíscua, ela está porque não tem escolhas, assim como Maria Madalena".


           Um dos fiéis respondeu:


           " Mas ela é um homem vestido de mulher, ela peca contra a natureza humana e a obra de Deus".

            "O pecado não é o que somos e sim o que agimos. Cada um pode procurar a sua própria salvação, mas não é julgando e destilando ódio que seremos melhores. Os seus olhares foram semelhantes às pedras que seriam atiradas em Maria Madalena. Estamos há quase dois mil anos da época de Cristo e agimos iguais aos romanos, com ódio e intolerância. Isso tem que parar."

            O cachorro se soltou do colo do padre e fugiu; "O destino do ser humano é idêntico ao desse cachorro, ser livre  antes de tudo. Thomas de Aquino e tantos outros nos mostraram que a igreja é a fé de que todos podemos ser iguais e semelhantes diante de Deus e que temos a liberdade de escolher o nosso destino, embora sempre arquemos com nossas consequências. Ser cristão não é só rezar o Pai Nosso e a Ave Maria, é ser solidário sempre com nossos semelhantes".

          Depois disso, eu poderia mentir e dizer que a arquidiocese nunca mais foi a mesma, os fiéis passaram a ser mais caridosos e ouviram com mais intenção a palavra do Senhor. Bem seria uma mentira, os dois padres foram denunciados ao bispo e transferidos de arquidiocese e bem, nada mudou naquele convento. Os fiéis continuaram católicos e sem querer continuaram presos na intolerância e no preconceito. 

"O cristianismo é uma religião de pobres cuja sabedoria é se reconhecerem como servos de toda a humanidade"

         A travesti foi morta duas semanas depois pela disputa do ponto pelas ruas, o mendigo passou por fome e privações até ser colocado à força pela Prefeitura no albergue e o  cachorro, esse sim continua livre e feliz nas ruas de São Paulo. Nenhum dos fiéis rezou uma missa para aqueles pobres infelizes que viviam nas ruas.

O preconceito

      Lá estava ela,
      às onze e meia da manhã
      Era um dia quente
      de sol vermelho.

      O céu estava limpo
       Azul e sereno
       Nada de violento
       Apenas azul


       Ela desceu,
       andou pela cidade
       Seu cabelo loito
       fino e delicado
       tornou-se trançado
       Meio descuidado?
       Talvez...


        Não que houvesse escolha
        Sem secador ou mesmo escova
        Ela foi almoçar. A fome aperta
     
        No caminho, ela começa a ser olhada
        Dos cantos mais obscuros da cidade
        E violam sem querer sua inocência
        Os julgamentos são mortais.

        Ao chegar no restaurante,
        Todas as mulheres a olham,
         Das mais velhas mães de família
         Sem um tostão no bolso.
         Às patricinhas do Ensino Médio.

         A julgam, a reprovam...
         Como pôde sair desse jeito?
         Quando se dão por conta
         Estão falando mal da travesti.

         Os excrementos de suas bocas exalam
         Enjoam e infestam o ambiente.
          À surdina do preconceito, ela saí
          Corre para o primeiro salão arrumar o cabelo...


         Mais e mais olhares julgadores.
         A cabeleireira a olha com desdém
         E diz que só pode atender às 17hs da tarde.
         Tarde demais. O estrago foi feito.

         As mulheres conseguem ser mais maldosas
         Do que as crianças do jardim de infância.
         Elas falam por suas costas, todas elas.
         E sentindo o peso dos julgamentos em seus ombros.
         Ela chora.

         O tempo se fecha,
         começa a ventar,
         o cabelo desgrenhado voa.
         O vestido trançado se abre
         Começa a chover.


        Nessa chuva salgada,
        com o gosto de lágrima
        num choro surdo e melancólico.
        Os carros buzinam com désdem.

        Seus motores incomodam,
        Seus carburadores maltratam.
        Os assobios pela janela humilham.

        Estava ela chorando, com o cabelo molhado
        No meio da chuva enquanto segurava
        A barra solta de seu vestido.

       A porta não abre,
       mais e mais humilhações.
       Numa sociedade kafkaniana
       Todo olhar pode ser uma teletela
        De desaprovação e preconceito.

       Jane Austen estaria envergonhada
       Com os novos costumes
       da nova sociedade pós-vitoriana.
       Os pudores e a hipocrisia
       De homens e mulheres preconceituosos
       Que se escondem em opiniões mentirosas.


       O orgulho e o preconceito
       andam lado a lado
        nessa epopeia de horrores
        que é o dia a dia de uma travesti.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Memórias da América



As representações latino-americanas acerca de datas importância nacional como o quincentenário da América, ocorrido em 1992, mostram um continente rico, ainda com uma história muito sangrenta e cheia de rupturas. Mémoires em Devenir (de GUERRA, François-Xavier (org.) Mémoires en Devenir. Amérique latine XVIe-XXe siècle. Bordeaux, Maison des Pays Ibériques, 1994) é um texto elegante que não se atém ao compromisso de analisar a América Latina sob uma análise monocausal do que vem a ser a memória construída em todo continente, pelo contrário, ele pincela porções de narrativa sob um prisma singular e porque não sensível sobre como se constrói essa identidade em formação dos latino-americanos.

Observando por exemplo os mais diferentes casos nas representações latino-americanas em datas comemorativas, ficamos obviamente intrigado com as necessidades históricas de determinados estados em consolidar o poder central como poder de fato, que para Guerra não é uma coisa fácil de se lidar, porque desde o período colonial o poder político real não corresponde ao poder imediatamente pensado.

Para Guerra a memória é invariavelmente seletiva e parcial, mas “falar de escolha e significação implica que a memória pessoal, a mais pessoal das memórias, já é uma reconstrução individual e social do passado”[1] e não podemos nos incair apenas no reducionismo de que a memória é uma porção restrita ao indíviduo ou a um segmento social, pois ela invariavelmente passa a ser transmitida nem que seja pela oralidade. A questão é o discurso que foi posto no plano da hegemonia.
Quando pensamos nas grandes construções memoriais temos que estar cientes de que as construções não são dissociadas de seus atores, que no caso dos cinquentenários da independência são os estados-nacionais em construção, e que invariavelmente constroem identidades que são ditas como verdades indiscutíveis e universais, às vezes atuando como referências culturais e de comportamento.
No caso venezuelano isso parece ser evidente como uma maneira de diferenciar-se identitariamente e culturalmente da Colômbia e da memória da Grã-Colômbia,  o resgate de Símon Bolivar no cinquentenário com a vinda dos restos mortais dessa figura respondia aos anseios políticos diretos daquele país em conflito. Entretanto a despeito do volume das comemorações do cinquentário tanto na Colômbia como na Venezuela serem dignas de nota, a presença do elemento indígena é completamente esquecida em prol de uma ideia de civilidade europeia, católica e progressista, conforme os anseios liberais da época. Por vezes a memória hispânica é tomada como uma bandeira identitária da própria elite acostumada com o seu papel de topo dos segmentos sociais.

Ao Peru e Chile fenômenos dissociados da ideia de hispanidade ocorrem, em virtude da guerra de ambos os países contra a antiga metrópole. Mas em virtude dos acirramentos no contexto regional e subconsequentes conflitos entre os dois países pela posse das minas mineradoras de salitre, as comemorações de ambos os países são um indício de consolidação da identidade nacional frente à outra nação beligerante ou potencialmente beligerante, os dois países tomam partido na criação de mitos nacionais, e o caso peruano é mais emblemático pelo garbo de suas comemorações com a realização de uma exposição aos moldes europeus em Lima no ano de 1871. 

Os fenômenos europeus são implantados pelas elites locais de tradição liberal em diferentes países do continente, seja o translado do corpo de Simon Bolivar um ano após do retorno das cinzas de Napoleão à Paris, ou a exposição do centenário de independência de Lima que estava em diálogo com a Feira Mundial de  Paris realizada no mesmo intervalo temporal. A suntuosidade das comemorações, com o uso de arte efêmera é de tal detalhismo que demonstra a riqueza peruana no período da exploração do salitre.


Na Argentina, a despeito do caráter mais modesto das comemorações quando comparadas ao Peru, ela se tornou um marco político portenho sobre as outras províncias do interior, um símbolo da nova consolidação política de Buenos Aires sob a coação dos territórios interioranos (com a eliminação dos caudilhos) e a expansão argentina ao território patagão. A celebração na Praça de Maio com a construção do obelisco é um símbolo de um novo país nascente e economicamente galopante após Mitre e a Guerra do Paraguai. A memória argentina estava atrelada à ideia de progresso e desenvolvimento econômico numa identidade francamente emprestada dos europeus (sobretudo dos ingleses e franceses) de um novo estado que despovoaria as terras platinas dos gaúchos para colonizá-la com imigrantes europeus.

Ao Brasil, o que podemos dissertar é que a modéstia das comemorações está atrelada não à existência a  problemas políticos, afinal o Brasil monarquista de Pedro II vinha vitorioso do conflito da Tríplice Aliança. A inflação e as contas públicas do conflito eram elementos econômicos para dissociar a ideia de comemorações suntuosas do Império, ademais, Pedro II possui uma preocupação mais evidente na questão do ensino, financiando pessoalmente o Colégio homônimo com suas finanças pessoais.

Entretanto, não podemos incorrer em dada injustiça ao menosprezar as comemorações brasileiras, afinal de contas o culto aos irmãos Andrada respondia aos anseios da Monarquia como forma estável de governo, de maneira que o Partido Liberal se beneficiaria do culto a José Bonifácio.

Verificamos então o caso norte-americano, se nas comemorações do cinquentenário observamos uma dissociação da identidade inglesa, sobretudo em virtude da tensão ocasionada com a guerra contra a Inglaterra em 1810, e uma extensão dos ideais revolucionários a outros países do continente.
Em 1872, as comemorações do centenário respondem a outro circunspecto político, afinal é a data em que as últimas fronteiras americanas são consolidadas no Oeste, após uma sucessão de conflitos com os mexicanos e anexações de territórios mediante negociações, a mais recente é o caso do Alasca em 1869 com o secretário de Estado Seward. Mas também é a época da expansão do capital do Norte mediante à ferrovias e industrialização acelerada após o recente conflito com os estados confederados na Guerra de Secessão.

A fratura norte-americana e, sobretudo, na identidade americana mantém-se nas comemorações do centenário de maneira que os estados sulistas não acompanham as celebrações da mesma maneira que o Norte, os ressentimentos  e a humilhação da guerra tornam a reconciliação cada vez mais difícil. A administração de Ulisses Grant é marcada por sucessivos escândalos, assim como o governo anterior, de Andrew Johnson sofreu com mais instabilidades após o hiperendividamento da União, a inflação resultante da Guerra e o rombo aos cofres públicos na Compra do Alasca.
A morte de Lincoln é um marco do desarranjo norte-americano que se estabilizará apenas quando a grande crise de 1870 for superada no mandato de Rutherford Hayes. Grant, entretanto, em 1872,  promoveu a maior exposição das Américas, na cidade de Philadelphia.
No ano dessas comemorações consolida-se a ideia da consolidação da Corrida para Oeste, na qual o próprio presidente inaugura a ferrovia para o Pacifico. A visita de chefes de Estado, incluindo Pedro II, é uma das cartas triunfais dos americanos como  uma nação respeitada internacionalmente que anseia ser reconhecida. Os republicanos passam a ser atores na reconstrução americana e incentivam cada vez mais a ideia de Progresso e da consolidação econômica do Norte.

Na Feira de Philadelphia, evidenciam-se as novidades da indústria norte-americana, seja o culto  às ferrovias (com a existência de linhas de ferro no interior do parque de exposições), mas também inventos primorosos e recentes: Como o telefone de Graham Bell e a máquina de escrever Remington. O espelho norte-americano mirava a ideia progressistas de desenvolvimento tecnológico e de prosperidade, a despeito dos evidentes problemas internos; Dez anos depois, os Estados Unidos consolidam-se como nação imperialista ao iniciar uma rápida guerra com os espanhóis, resultando na vitória dos anglo-americanos.

Nesses cinco casos evidenciam-se as finalidades e aspirações de diferentes governos e países na sua consolidação identitária e superação de dilemas internos. A construção de imaginário nacional é festejada com a criação de mitos pátrios, resgates identitários e a franca esperança na fé e no Progresso. Não podemos nos imiscuir que na variedade entre a permanência e a variedade, os duros embates em torno da memória saem com segmentos perdedores. No caso dos países platinos, a identidade indígena, que é trucidada com as sucessivas guerras contra os mapuches, no caso brasileiro, as identidade negra (assolada pelo fantasma da escravidão) e indígena, no caso setentrional da América do Sul está o resgate à hispanidade como um elemento de identificação nacional. No caso americano é ainda mais complexo, é sobretudo o sufocamento da identidade sulista (perdedora do conflito recente), dos indígenas (trucidados nas corridas para o Oeste), dos hispânicos (remanescentes dos conflitos com o México) e dos negros (marginalizados na nova União consolidada após a morte de Lincoln).
O elemento da imigração é um dos fatores a serem considerados em diferentes casos, sobretudo no caso argentino, chileno e americano, mas não é conveniente esquecer um dilema da identidade construída e reforçada pelas comemorações da independência: A construção identitária nas Américas respondem a inquietação colonial da ruptura da identidade com a metrópole  e ela está construída através do alicerce da discórdia mútua contra os seus vizinhos.
Há casos não abordados que merecem citação, como o cinquentenário de independência do México dado no período conturbado de sua história, onde o próprio país, fraturado com as sucessivas guerras contra os americanos, e tomado por intrigas internas é invadido por uma potência europeia (a França) com a implantação de uma monarquia estrangeira Habsburgo.O México sofre um duro revés em sua própria memória e identidade, embora não tenha se negligenciado totalmente a sua própria memória da independência.
O outro caso não abordado é o Paraguai. Desolado e destruído pela Guerra da Tríplice Aliança, o estado em construção sofre a fratura da humilhação e da dissociação do poder com a queda de Solano Lopez, os paraguaios não tem condições políticas nem sociais para manter as comemorações, embora consolidem o seu revanchismo contra os portenhos e  brasileiros durante os governos colorados até 1904.
Sem mais delongas, no avançar do texto de Guerra encontramos paradigmas indiciários que respondem algumas indagações imediatas sobre os cenários permeados pela memória e a representação. A segmentação identitária acompanha a criação de uma história nacional, com criação de mitos pátrios, e de anseios das elites detentoras do poder.  A isso compreendemos a valorização de Bolívar, o trabalho de Mitre em escrever uma história da Argentina ou a realização de uma grande exposição feita no Norte dos Estados Unidos.
Submetidos a essas condições podemos analisar de forma mais adequada aos dilemas da questão das comemorações nas Américas.




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