Acima do bem e do mal repousa todas as coisas que concernem a natureza humana.

sábado, 24 de junho de 2017

Insônia

Estou sem sono outra noite
Sem ter o consolo do abraço
Sem a paz diante dos meus olhos
Estou cansaço desse açoite

Preocupado, penso
Medito, ando de um lado a outro
Estou sem ideias, mas pior que isso
Eu estou sem sono

Fico nesse epitáfio por horas
Sem imaginar o que poderia ser ruim
Senão ficar uma noite inteira ao claro
Terrível não conseguir parar de pensar

Muitas coisas passam na minha cabeça
Desejo um gole de conhaque e talvez dois
Um trago de tabaco, e que sofrimento
É esse pra conseguir dormir!

Fico parado na janela
Conto o número de postes na minha sacada
Acho que são quinze ao todo.
A cidade está cada vez mais fria
Meu coração está gelado
Assim como o ábaco faz contas
Meu cérebro dá giros.

Estou totalmente sem sono.
Estou com frio
E estou sozinho.
É assim que sempre foi a vida.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

O vento

       No convento da igreja, onde a cruz vermelha esconde o sofrimento e o medo, dois padres discutem o significado da vida. Um deles responde:

       "A vida é produto de nossa fé, do amor e do perdão ao outro. Sem isso não somos cristãos".

        O outro padre medita, silenciosamente, degusta um pedaço de pão e beberica um pouco de vinho:

        "Não sei se a vida responde aos pecados, mas sei que nossa mocidade e velhice deve-se procurar ser pio e justo antes de tudo"

       Olharam para a estátua de Santo Agostinho. Foi tudo por água abaixo. Na mocidade, o santo não
conseguiu ser pio e desvencilhado do pecado e na velhice respondeu aos seus erros postulando
um conjunto de ideias para Igreja Católica sem no entanto responder o grande significado da vida.

        O manto vermelho do Santo Sepulcro escondia o sofrimento de um pobre carpinteiro, escolhido no meio do deserto, em meio à fome e o frio por quarenta dias, enquanto Yeshua meditava com o diabo.

       "A perdição está no  orgulho. Está  na luxúria e no preconceito".

        O primeiro padre medita  e o sino toca. A missa e a congregação se reúnem e no bastião do concílio do Vaticano, os fiéis sentam-se em seus lugares.

        O convento beneditino se une à cidade, na procissão de almas, o andar lento corresponde à velocidade da vida. Sem ter escolha, a procissão prossegue e encontra as almas perdidas da cracolândia, passa por frente da luz vermelha dos motéis e das prostitutas.

       Os fiéis julgam, insultam com os olhos, silenciosos sob a luz das velas e das orações. aquilo incomoda os dois padres:

        "O pão nosso que nos daí hoje", o primeiro padre corta o pão e entrega a um mendigo.

        O mendigo faminto o abraça com as roupas sujas e o padre não se incomoda. Os fiéis o julgam por sua caridade, os mais fanáticos seguem o seu gesto e dividem o pão aos mais pobres.

          "Esse é o corpo de Cristo. Perdoai nossas ofensas".

          O segundo padre anda com uma vela na mão e  retira da escuridão um cachorro perdido. Ele o abraça e o leva consigo.

          "Seja na Terra como no Céu".

          Quando o cortejo passa na pista, os carros param, não há buzinas nem insultos, são homens santos antes de tudo. Quando caminham descalços pelas vielas, eles se calam sem ter medo nos olhos.Eles são católicos e  seguem a luz das estrelas na metrópole cheia de sombras

           A catedral beneditina está muito longe, mas os dois missionários conduzem aquele rebanho
De velhas senhoras e de fiéis católicos, até onde menos se espera: ao lado mais esquecido da cidade.

         Ali encontram-se homens santos e as mulheres da vida. Um ao seu turno se olham sem se falar. Os padres meditam, os fiéis julgam: O primeiro padre entrega um pouco  de pão à uma prostituta sem falar nada:
         "Perdoai nossas ofensas", diz sem cerimônia. Ninguém repete o que o padre diz.

         O segundo padre, não satisfeito, conversa com uma travesti:

         "Boa noite, minha filha.  Está frio hoje, Você quer um pouco de vinho?"

          A travesti encara o cortejo com estranhamento, mas diante da generosidade do padre, beberica um pouco do vinho, ainda um pouco chocada com os olhares dos fiéis. Os fiéis ficaram horrorizados quando o padre entregou um pouco de vinho santo à travesti.

         "Tenham uma boa noite e tomem cuidado, minhas filhas, a cidade está perigosa".

           Os dois padres andaram mais à frente do cortejo, debatiam, sem dúvida, o que significava aquele cortejo. Seguiram em direção à Nove de Julho para a Arquidiocese beneditina rezar a missa. No caminho, um dos padres falou:

         "Quando Jesus foi castigado na cruz santa, em seu leito de morte ele disse: "Amai uns aos outros como a ti mesmo". Jesus era um pobre carpinteiro de uma família humilde que sofreu para nos mostrar o caminho, nós louvamos o seu nome porque ele trouxe uma mensagem muito importante para nós: Paz."

         "Alguns entre vocês não entenderam o porquê dessa procissão, nem porque eu ter repartido o pão e o vinho com mendigos e prostitutas. Eu fico triste em saber que a sua solidariedade não se estende a todos nossos irmãos e acho isso bastante grave como cristão. Jesus se cercou de leprosos e prostitutas, sem esperar nada em troca, salvou os mais pobres do seu terrível destino."

         "Quando dei o vinho  para aquela travesti e pedi para que perdoasse nossas ofensas é porque eu queria me desculpar por sempre sermos tão perversos com as pessoas mais vulneráveis. Aquela menina está na rua não porque deseja ou porque seja promíscua, ela está porque não tem escolhas, assim como Maria Madalena".


           Um dos fiéis respondeu:


           " Mas ela é um homem vestido de mulher, ela peca contra a natureza humana e a obra de Deus".

            "O pecado não é o que somos e sim o que agimos. Cada um pode procurar a sua própria salvação, mas não é julgando e destilando ódio que seremos melhores. Os seus olhares foram semelhantes às pedras que seriam atiradas em Maria Madalena. Estamos há quase dois mil anos da época de Cristo e agimos iguais aos romanos, com ódio e intolerância. Isso tem que parar."

            O cachorro se soltou do colo do padre e fugiu; "O destino do ser humano é idêntico ao desse cachorro, ser livre  antes de tudo. Thomas de Aquino e tantos outros nos mostraram que a igreja é a fé de que todos podemos ser iguais e semelhantes diante de Deus e que temos a liberdade de escolher o nosso destino, embora sempre arquemos com nossas consequências. Ser cristão não é só rezar o Pai Nosso e a Ave Maria, é ser solidário sempre com nossos semelhantes".

          Depois disso, eu poderia mentir e dizer que a arquidiocese nunca mais foi a mesma, os fiéis passaram a ser mais caridosos e ouviram com mais intenção a palavra do Senhor. Bem seria uma mentira, os dois padres foram denunciados ao bispo e transferidos de arquidiocese e bem, nada mudou naquele convento. Os fiéis continuaram católicos e sem querer continuaram presos na intolerância e no preconceito. 

"O cristianismo é uma religião de pobres cuja sabedoria é se reconhecerem como servos de toda a humanidade"

         A travesti foi morta duas semanas depois pela disputa do ponto pelas ruas, o mendigo passou por fome e privações até ser colocado à força pela Prefeitura no albergue e o  cachorro, esse sim continua livre e feliz nas ruas de São Paulo. Nenhum dos fiéis rezou uma missa para aqueles pobres infelizes que viviam nas ruas.

O preconceito

      Lá estava ela,
      às onze e meia da manhã
      Era um dia quente
      de sol vermelho.

      O céu estava limpo
       Azul e sereno
       Nada de violento
       Apenas azul


       Ela desceu,
       andou pela cidade
       Seu cabelo loito
       fino e delicado
       tornou-se trançado
       Meio descuidado?
       Talvez...


        Não que houvesse escolha
        Sem secador ou mesmo escova
        Ela foi almoçar. A fome aperta
     
        No caminho, ela começa a ser olhada
        Dos cantos mais obscuros da cidade
        E violam sem querer sua inocência
        Os julgamentos são mortais.

        Ao chegar no restaurante,
        Todas as mulheres a olham,
         Das mais velhas mães de família
         Sem um tostão no bolso.
         Às patricinhas do Ensino Médio.

         A julgam, a reprovam...
         Como pôde sair desse jeito?
         Quando se dão por conta
         Estão falando mal da travesti.

         Os excrementos de suas bocas exalam
         Enjoam e infestam o ambiente.
          À surdina do preconceito, ela saí
          Corre para o primeiro salão arrumar o cabelo...


         Mais e mais olhares julgadores.
         A cabeleireira a olha com desdém
         E diz que só pode atender às 17hs da tarde.
         Tarde demais. O estrago foi feito.

         As mulheres conseguem ser mais maldosas
         Do que as crianças do jardim de infância.
         Elas falam por suas costas, todas elas.
         E sentindo o peso dos julgamentos em seus ombros.
         Ela chora.

         O tempo se fecha,
         começa a ventar,
         o cabelo desgrenhado voa.
         O vestido trançado se abre
         Começa a chover.


        Nessa chuva salgada,
        com o gosto de lágrima
        num choro surdo e melancólico.
        Os carros buzinam com désdem.

        Seus motores incomodam,
        Seus carburadores maltratam.
        Os assobios pela janela humilham.

        Estava ela chorando, com o cabelo molhado
        No meio da chuva enquanto segurava
        A barra solta de seu vestido.

       A porta não abre,
       mais e mais humilhações.
       Numa sociedade kafkaniana
       Todo olhar pode ser uma teletela
        De desaprovação e preconceito.

       Jane Austen estaria envergonhada
       Com os novos costumes
       da nova sociedade pós-vitoriana.
       Os pudores e a hipocrisia
       De homens e mulheres preconceituosos
       Que se escondem em opiniões mentirosas.


       O orgulho e o preconceito
       andam lado a lado
        nessa epopeia de horrores
        que é o dia a dia de uma travesti.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Memórias da América



As representações latino-americanas acerca de datas importância nacional como o quincentenário da América, ocorrido em 1992, mostram um continente rico, ainda com uma história muito sangrenta e cheia de rupturas. Mémoires em Devenir (de GUERRA, François-Xavier (org.) Mémoires en Devenir. Amérique latine XVIe-XXe siècle. Bordeaux, Maison des Pays Ibériques, 1994) é um texto elegante que não se atém ao compromisso de analisar a América Latina sob uma análise monocausal do que vem a ser a memória construída em todo continente, pelo contrário, ele pincela porções de narrativa sob um prisma singular e porque não sensível sobre como se constrói essa identidade em formação dos latino-americanos.

Observando por exemplo os mais diferentes casos nas representações latino-americanas em datas comemorativas, ficamos obviamente intrigado com as necessidades históricas de determinados estados em consolidar o poder central como poder de fato, que para Guerra não é uma coisa fácil de se lidar, porque desde o período colonial o poder político real não corresponde ao poder imediatamente pensado.

Para Guerra a memória é invariavelmente seletiva e parcial, mas “falar de escolha e significação implica que a memória pessoal, a mais pessoal das memórias, já é uma reconstrução individual e social do passado”[1] e não podemos nos incair apenas no reducionismo de que a memória é uma porção restrita ao indíviduo ou a um segmento social, pois ela invariavelmente passa a ser transmitida nem que seja pela oralidade. A questão é o discurso que foi posto no plano da hegemonia.
Quando pensamos nas grandes construções memoriais temos que estar cientes de que as construções não são dissociadas de seus atores, que no caso dos cinquentenários da independência são os estados-nacionais em construção, e que invariavelmente constroem identidades que são ditas como verdades indiscutíveis e universais, às vezes atuando como referências culturais e de comportamento.
No caso venezuelano isso parece ser evidente como uma maneira de diferenciar-se identitariamente e culturalmente da Colômbia e da memória da Grã-Colômbia,  o resgate de Símon Bolivar no cinquentenário com a vinda dos restos mortais dessa figura respondia aos anseios políticos diretos daquele país em conflito. Entretanto a despeito do volume das comemorações do cinquentário tanto na Colômbia como na Venezuela serem dignas de nota, a presença do elemento indígena é completamente esquecida em prol de uma ideia de civilidade europeia, católica e progressista, conforme os anseios liberais da época. Por vezes a memória hispânica é tomada como uma bandeira identitária da própria elite acostumada com o seu papel de topo dos segmentos sociais.

Ao Peru e Chile fenômenos dissociados da ideia de hispanidade ocorrem, em virtude da guerra de ambos os países contra a antiga metrópole. Mas em virtude dos acirramentos no contexto regional e subconsequentes conflitos entre os dois países pela posse das minas mineradoras de salitre, as comemorações de ambos os países são um indício de consolidação da identidade nacional frente à outra nação beligerante ou potencialmente beligerante, os dois países tomam partido na criação de mitos nacionais, e o caso peruano é mais emblemático pelo garbo de suas comemorações com a realização de uma exposição aos moldes europeus em Lima no ano de 1871. 

Os fenômenos europeus são implantados pelas elites locais de tradição liberal em diferentes países do continente, seja o translado do corpo de Simon Bolivar um ano após do retorno das cinzas de Napoleão à Paris, ou a exposição do centenário de independência de Lima que estava em diálogo com a Feira Mundial de  Paris realizada no mesmo intervalo temporal. A suntuosidade das comemorações, com o uso de arte efêmera é de tal detalhismo que demonstra a riqueza peruana no período da exploração do salitre.


Na Argentina, a despeito do caráter mais modesto das comemorações quando comparadas ao Peru, ela se tornou um marco político portenho sobre as outras províncias do interior, um símbolo da nova consolidação política de Buenos Aires sob a coação dos territórios interioranos (com a eliminação dos caudilhos) e a expansão argentina ao território patagão. A celebração na Praça de Maio com a construção do obelisco é um símbolo de um novo país nascente e economicamente galopante após Mitre e a Guerra do Paraguai. A memória argentina estava atrelada à ideia de progresso e desenvolvimento econômico numa identidade francamente emprestada dos europeus (sobretudo dos ingleses e franceses) de um novo estado que despovoaria as terras platinas dos gaúchos para colonizá-la com imigrantes europeus.

Ao Brasil, o que podemos dissertar é que a modéstia das comemorações está atrelada não à existência a  problemas políticos, afinal o Brasil monarquista de Pedro II vinha vitorioso do conflito da Tríplice Aliança. A inflação e as contas públicas do conflito eram elementos econômicos para dissociar a ideia de comemorações suntuosas do Império, ademais, Pedro II possui uma preocupação mais evidente na questão do ensino, financiando pessoalmente o Colégio homônimo com suas finanças pessoais.

Entretanto, não podemos incorrer em dada injustiça ao menosprezar as comemorações brasileiras, afinal de contas o culto aos irmãos Andrada respondia aos anseios da Monarquia como forma estável de governo, de maneira que o Partido Liberal se beneficiaria do culto a José Bonifácio.

Verificamos então o caso norte-americano, se nas comemorações do cinquentenário observamos uma dissociação da identidade inglesa, sobretudo em virtude da tensão ocasionada com a guerra contra a Inglaterra em 1810, e uma extensão dos ideais revolucionários a outros países do continente.
Em 1872, as comemorações do centenário respondem a outro circunspecto político, afinal é a data em que as últimas fronteiras americanas são consolidadas no Oeste, após uma sucessão de conflitos com os mexicanos e anexações de territórios mediante negociações, a mais recente é o caso do Alasca em 1869 com o secretário de Estado Seward. Mas também é a época da expansão do capital do Norte mediante à ferrovias e industrialização acelerada após o recente conflito com os estados confederados na Guerra de Secessão.

A fratura norte-americana e, sobretudo, na identidade americana mantém-se nas comemorações do centenário de maneira que os estados sulistas não acompanham as celebrações da mesma maneira que o Norte, os ressentimentos  e a humilhação da guerra tornam a reconciliação cada vez mais difícil. A administração de Ulisses Grant é marcada por sucessivos escândalos, assim como o governo anterior, de Andrew Johnson sofreu com mais instabilidades após o hiperendividamento da União, a inflação resultante da Guerra e o rombo aos cofres públicos na Compra do Alasca.
A morte de Lincoln é um marco do desarranjo norte-americano que se estabilizará apenas quando a grande crise de 1870 for superada no mandato de Rutherford Hayes. Grant, entretanto, em 1872,  promoveu a maior exposição das Américas, na cidade de Philadelphia.
No ano dessas comemorações consolida-se a ideia da consolidação da Corrida para Oeste, na qual o próprio presidente inaugura a ferrovia para o Pacifico. A visita de chefes de Estado, incluindo Pedro II, é uma das cartas triunfais dos americanos como  uma nação respeitada internacionalmente que anseia ser reconhecida. Os republicanos passam a ser atores na reconstrução americana e incentivam cada vez mais a ideia de Progresso e da consolidação econômica do Norte.

Na Feira de Philadelphia, evidenciam-se as novidades da indústria norte-americana, seja o culto  às ferrovias (com a existência de linhas de ferro no interior do parque de exposições), mas também inventos primorosos e recentes: Como o telefone de Graham Bell e a máquina de escrever Remington. O espelho norte-americano mirava a ideia progressistas de desenvolvimento tecnológico e de prosperidade, a despeito dos evidentes problemas internos; Dez anos depois, os Estados Unidos consolidam-se como nação imperialista ao iniciar uma rápida guerra com os espanhóis, resultando na vitória dos anglo-americanos.

Nesses cinco casos evidenciam-se as finalidades e aspirações de diferentes governos e países na sua consolidação identitária e superação de dilemas internos. A construção de imaginário nacional é festejada com a criação de mitos pátrios, resgates identitários e a franca esperança na fé e no Progresso. Não podemos nos imiscuir que na variedade entre a permanência e a variedade, os duros embates em torno da memória saem com segmentos perdedores. No caso dos países platinos, a identidade indígena, que é trucidada com as sucessivas guerras contra os mapuches, no caso brasileiro, as identidade negra (assolada pelo fantasma da escravidão) e indígena, no caso setentrional da América do Sul está o resgate à hispanidade como um elemento de identificação nacional. No caso americano é ainda mais complexo, é sobretudo o sufocamento da identidade sulista (perdedora do conflito recente), dos indígenas (trucidados nas corridas para o Oeste), dos hispânicos (remanescentes dos conflitos com o México) e dos negros (marginalizados na nova União consolidada após a morte de Lincoln).
O elemento da imigração é um dos fatores a serem considerados em diferentes casos, sobretudo no caso argentino, chileno e americano, mas não é conveniente esquecer um dilema da identidade construída e reforçada pelas comemorações da independência: A construção identitária nas Américas respondem a inquietação colonial da ruptura da identidade com a metrópole  e ela está construída através do alicerce da discórdia mútua contra os seus vizinhos.
Há casos não abordados que merecem citação, como o cinquentenário de independência do México dado no período conturbado de sua história, onde o próprio país, fraturado com as sucessivas guerras contra os americanos, e tomado por intrigas internas é invadido por uma potência europeia (a França) com a implantação de uma monarquia estrangeira Habsburgo.O México sofre um duro revés em sua própria memória e identidade, embora não tenha se negligenciado totalmente a sua própria memória da independência.
O outro caso não abordado é o Paraguai. Desolado e destruído pela Guerra da Tríplice Aliança, o estado em construção sofre a fratura da humilhação e da dissociação do poder com a queda de Solano Lopez, os paraguaios não tem condições políticas nem sociais para manter as comemorações, embora consolidem o seu revanchismo contra os portenhos e  brasileiros durante os governos colorados até 1904.
Sem mais delongas, no avançar do texto de Guerra encontramos paradigmas indiciários que respondem algumas indagações imediatas sobre os cenários permeados pela memória e a representação. A segmentação identitária acompanha a criação de uma história nacional, com criação de mitos pátrios, e de anseios das elites detentoras do poder.  A isso compreendemos a valorização de Bolívar, o trabalho de Mitre em escrever uma história da Argentina ou a realização de uma grande exposição feita no Norte dos Estados Unidos.
Submetidos a essas condições podemos analisar de forma mais adequada aos dilemas da questão das comemorações nas Américas.




[1] Pág. 1.

O antissemitismo (um vocábulo)



            O conceito de antissemitismo não se caracteriza só pela “hostilidade em relação aos hebreus”, pois afinal de contas esse conceito varia conforme a época em que ele é empregado, de modo que não se pode comparar o antissemitismo antigo, medieval ou moderno com o antissemitismo relacionado ao aparecimento do próprio nacionalismo.
            O antissemitismo não pode, por essa visão, ser tomado como algo único, mas algo que se modifica, caso contrário poderiam se chegar a conclusões “a-históricas e aberrantes”. Entretanto, uma característica tão absurdamente estúpida não se modifica ao passar do tempo, quando se trata de antissemitismo, o ódio aos judeus. Mais ou menos escancarado com o passar do tempo, ele se mantém por “n” razões diferentes o qual o texto não busca abarcar. Afinal, além da época, o que difere o antissemitismo moderno do antissemitismo da Alemanha Nacional-Socialista? Em verdade, os elementos sociais e culturais que embasaram esse sentimento de aversão aos judeus, o modo como tais sentimentos de aversão se demonstram cada vez mais presentes;
            É de fato que o Ortona caracteriza que o ódio aos judeus não é só algo relacionado à fé ou sua questão identitária, mas as classes sociais as quais os hebreus foram relacionados: como os comerciantes e os usuários. Entretanto pode-se questionar se essa concepção é correta, afinal de contas, os judeus estavam presentes em diferentes escalões da própria sociedade.
            Para Ortona, o fato de os judeus fazerem parte de uma fração de uma burguesia nascente na Prússia, bem como no Leste Europeu, bem como seu aspecto de não assimilação à cultura local teria levado ao surgimento de tensões sociais.
            O antissemitismo costumeiramente é confundido com outros vocábulos como antissionismo e a oposição de um governo judeu, isso é incoerente, pois não necessariamente se é antissemita quando se advoga contra a formação de um Estado exclusivamente judeu no Oriente Médio;
            O autor acredita, de forma bastante responsável, que o antissemitismo sim é uma manifestação de hostilidade à comunidade judia, caracterizada pela sua própria religião e origem étnica. Contudo, o antissemitismo não pode ser enquadrado em outras realidades onde se faziam valer disputas internas por poder, como na Idade Média.
            O antissemitismo ganha força no século XIX, quando membros da comunidade judaica começam a se inserir de maneira cada vez mais sólida na economia e na sociedade (o que é discutível); Entretanto até meados do aparecimento do cristianismo, os judeus enfrentavam pouca perseguição no interior do Império Romano, mas quando o cristianismo começa a ganhar força, os judeus começam a ser hostilizados por sua questão religiosa, de modo que esse processo fica evidente quando se observam períodos posteriores do domínio cristão sobre a política ocidental, e os judeus são vistos com certo olhar de inferioridade frente aos cristãos.
            Durante a Idade Média, o judaísmo conheceu sua Idade de Ouro onde mais se produziu sobre o próprio judaísmo, embora nos conflitos decorrentes da própria ótica da sociedade corporativa, usa-se o fator do judaísmo para enfraquecer os oponentes; Embora os judeus tenham conhecido um momento de grande excedente de capitais, é equivocado dizer que eles tinham o monopólio do comércio com o Médio-Oriente, mesmo que eles tivessem realmente capital acumulado para disponibilizar na forma de empréstimos. Na verdade, não se pode dizer que os judeus possuíam um monopólio sobre as atividades econômicas existentes e de repente foram jogados para escanteio, isso é uma concepção muito generalizante, afinal de contas, na ótica da sociedade corporativa a dinâmica não era tão simples no meio das relações clientelares.
            O antissemitismo começa a crescer com o advento da Peste Negra, da qual os hebreus foram acusados de ter responsabilidade sobre a doença. São isolados da sociedade e hostilizados, retirados do comércio e retiram-lhes também a capacidade de fazer empréstimos. A sua marginalização veio acompanhada de uma piora da sua situação econômica e jurídica existente, embora também não fosse muito melhor anteriormente.
            O antissemitismo medieval caracterizar-se-ia por uma aversão aos judeus por sua condição social de propagadores de “um capitalismo” à partes mais distantes da Europa, sob a égide religiosa e do medo. Criam-se comunidades profundamente aversas aos judeus na Europa Ocidental.
            O antissemitismo moderno, para esse autor, caracteriza-se não mais por uma aversão a um “povo-classe”, mas por um processo em que o judeu é inserido no mercado de trabalho sem exclusividade ou monopólio de uma profissão, de modo que concorre com os trabalhadores de outras formações culturais. Esse antissemitismo é “pequeno-burguês” por essência, por ter sido fundamentado pelo temor de que os judeus tomassem todos os postos de trabalho. A isso se voltam muitas vezes às tradições, vitimizadoras, das quais culpar os judeus pelas mazelas sociais parece ser um argumento bastante perene e recorrente nessa sociedade.
            O advento do nacionalismo coloca a questão em cheque ao colocar os judeus como uma nacionalidade à parte da local, de modo que se caracteriza como um povo sem terra, que de certa maneira era tido como “desleal”. Assim intelectuais e membros da pequena elite europeia promovem o aparecimento de um esforço generalista contra os judeus para não trazerem maiores inseguranças e temores sobre a questão hebraica.
            O surgimento de uma teoria dita “científica” da biologia fundamenta o preconceito histórico a essas comunidades ao inventar o conceito de “raça” de maneira que após 1918 essa conceituação toma caminhos tão perigosos que desembocariam no aspecto mais trágico do antissemitismo, a eliminação física sistemática de judeus. O aparecimento de uma modalidade de discurso que culpava os judeus pelos problemas da Alemanha associada ao surgimento do movimento Nacional-Socialista levou a esse tipo de acontecimento. Embora na Alemanha já existisse um antissemitismo enraizado, é claro que não da mesma forma que viria a aparecer na década de 1930.
            A supressão do caráter nacional do judaísmo, bem como da cultura, representada pela política de alguns governos de banir o yiddish resulta como parte desse esforço antissemita que surgiu em meados do século XX.
            Ortona acredita que após o horror da guerra, o antissemitismo tenha perdido força devido ao impacto da opinião pública decorrente do Holocausto, de maneira que é mal vista a posição de alguns grupos da direita de atacar os judeus. O antissionismo da União Soviética tenta não se confundir com um antissemitismo, mas parece bastante reducionista acreditar que o antissemitismo tenha acabado como o autor dá a entender, ele se faz presente todos os dias e não desaparece mesmo após os mais diferentes acontecimentos relacionados aos judeus. O antissemitismo está vivo hoje no Oriente Médio, dessa vez, ocasionado pela política estúpida de Israel de oprimir os seus vizinhos. De qualquer forma a definição temporal proposta por Ortona parece ser interessante por nos lembrar que há momentos diferentes para o antissemitismo, mas também nos leva ao risco de acreditar que o antissemitismo como característica de pura aversão aos judeus teve um caráter brando em algumas épocas, o que não é inteiramente verdade.


A Máquina da Destruição: A diplomacia das armas (1870-1914)

        Não, a culpa não é da Alemanha. Está mais do que comprovado, a Primeira Guerra Mundial foi culpa de todos os países envolvidos, ali, naquele castelo de cartas, não havia inocentes a não ser os soldados mandados para a guerra. 

        Mas um dos elementos que germinaram a tensão de 1914 foi a unificação alemã e o revanchismo francês depois da perda da Alsácia-Lorena. A diplomacia europeia e a Pax Britannica caíram quando o sistema de Bismarck fracassou em manter o equilíbrio de um mundo cada vez mais industrializado e imperialista. A combinação explosiva de ferrovias, excesso de população, ganância por mercados e nacionalismo, tudo isso iria ser um pavio de pólvora que destruíra para sempre a Europa Vitoriana.

      “Após sua unificação, a Alemanha se tornou o país mais forte do continente, e foi crescendo em força a cada década, assim revolucionando a diplomacia europeia”[1], o problema que a ascensão da Alemanha como potência no cenário europeu desestabilizou o equilíbrio do poder no continente, exarcebando ainda mais as tensões, de maneira que a Alemanha tentou proteger a si mesma com a formação de coalizões, “le cauchemar des coalitions”, de maneira que no concerto europeu havia dois blocos constantes de tensão: Alemanha com a França, bem como o Império Austro-Húngaro com a Rússia.
            As movimentações diplomáticas alemãs se pautaram na tentativa de se impedir uma guerra de duas frentes, de maneira que a sua busca por parceiros no cenário político resultava numa tentativa de autoproteção, assim a Alemanha não tinha pretensões nos Bálcãs, mas desejava a preservação do Império Austro-Húngaro como meio de ainda manter um importante aliado, mas também não era desejoso à Alemanha ter a Rússia como inimiga.

            No concerto diplomático, a Alemanha encontrava o seguinte caso: A Grã-Bretanha isolada em si mesma preocupando-se apenas com os seus interesses na África e Ásia; a crescente hostilidade dos franceses por conta da Guerra Franco-Prussiana. Os embates entre austríacos e russos para esfacelar o Império Otomano. A aliança construída por Bismarck entre esses dois últimos e a Alemanha parecia ser a “chave para a paz na Europa”[2].
            Embora a Grã-Bretanha agisse pontualmente como mediadora dos conflitos no cenário europeu, isso não reduzia o bloco de tensão entre Rússia e Áustria, bem como Alemanha e França. “Contudo, muitos líderes britânicos, com exceção de Disraeli, não viam razão para se opor a um processo de consolidação nacional na Europa Central, que para os estadistas britânicos foi bem-vinda por décadas, especialmente quando sua culminação ocorria como resultado da guerra em que a França tinha sido tecnicamente o agressor”[3].
            A Grã-Bretanha tinha o status de protetora da ordem na Europa, mas cada vez mais a Alemanha tomava esse papel. “Bismarck foi portanto a figura dominante da diplomacia Europeia até ser demitido do gabinete em 1890”[4], sua política visando a paz e a afirmação da Alemanha como potência seguia os preceitos de não enfrentamento com nenhuma nação europeia, mas também instituiu uma política de isolar a França da Rússia e Áustria para evitar justamente o perigo de uma guerra em duas frentes. A aliança com a Rússia deveria ser feita sem hostilizar os britânicos, devidos os constantes atritos entre esses dois atores na Ásia e no Oriente Próximo.
            Retomando a Santa Aliança de Metternich, mas com um matiz próprio de sua Realpolitik, Bismarck acreditava que não havia grandes motivos para uma corrida colonial em direção à África e Ásia, porque isso poderia elevar os ânimos contra a Alemanha, causando tensões maiores com a França e a Inglaterra. A aliança com esses dois impérios autocráticos era um meio de manter a proteção do próprio regime político prussiano, bem como dar rigidez ao escudo da política externa alemã.
"Se as pessoas soubessem como são feitas a política e as salsichas, não iriam consumir nenhuma das duas"

            As crescentes tensões nos Bálcãs ameaçavam a ordem que a diplomacia prussiana tentava construir de maneira que conforme a falta de solução para as questões dessa região desembocaria nos trágicos eventos da Primeira Guerra Mundial, mas a princípio a política de conter os ânimos revanchistas da França isolando-a da Áustria e da Rússia resultou em resultados imediatos para a segurança da Alemanha, bem como o não enfrentamento com a potência dos mares, a Inglaterra. O papel moderador da Alemanha nas questões balcânicas agia nos limites do possível, mas com a demissão de Bismarck da Chancelaria e a ingerência do novo Kaiser nos assuntos externos abria-se o caminho para a solução mais belicosa para as questões no cenário europeu.

       A ingerência da Alemanha na solução nas tensões no concerto europeu apresentou vários desdobramentos que levariam a um cenário do equilíbrio do terror, ou “A política da Máquina da Destruição[1]. Com a demissão de Bismarck da Chancelaria, o novo kaiser traduziu a sua política externa por meios mais militaristas. Numa corrida colonial agressiva e num armamento crescente da Marinha e do Exército alemães.
            A política de contenção da França e do não enfrentamento à Inglaterra construída por Bismarck  foi ignorada por essa reviravolta na política externa alemã, de maneira que a tensão crescente na Europa fez a própria Inglaterra, que até o momento estava voltada para o seu “isolamentismo esplêndido”, voltar os olhos para a Alemanha.
            Com o arrefecimento das tensões entre Áustria e Rússia, num dado momento, discordando do rearranjo político com relação ao Oriente Próximo e ao “namoro” da Alemanha com o Império Otomano na construção da ferrovia Berlim-Bagdá, a Rússia abandona a Aliança e posteriormente se alia à França e à Inglaterra.
            “As nações da Europa transformaram o equilíbrio do poder em uma corrida por armamentos sem entender que  a tecnologia moderna e a conscrição em massa tinham gerado a guerra total, a maior ameaça à sua segurança, e à civilização europeia como um todo”.[2]
            Assim, embora a Alemanha na época de Bismarck tenha se tornado uma potência militar, ao contrário da Prússia de Frederico, o Grande, ela tinha tomado uma postura de moderação para não gerar maiores inquietações aos seus vizinhos, entretanto a moderação foi deixada de lado  quando os estadistas alemães ficaram “obcecados com o poder nu” das armas, coisa que “em contraste a outros estados-nação, a Alemanha não possuía nenhuma estrutura filosófica integradora”[3]. A Grã-Bretanha possuía o liberalismo como estrutura filosófica, a França tinha os apelos pela liberdade universal da Revolução Francesa, a Áustria um “benigno imperialismo universalista” e a Rússia tinha o amparo de libertadora dos povos eslavos e a ideia de descendente do Império Bizantino, assim para Kissinger a Alemanha a falta de norteadores intelectuais era a principal causa da política externa alemã sem um único foco.
            O aspecto militarista da sociedade alemã conscurpou “a sábia e comedida política” de Bismarck que havia prevenido o perigo de inseguridade da Alemanha se esta tomasse medidas agressivas. Construíram-se alianças permanentes com outras nações, coisa que foi bastante evitada pela Realpolitik de Bismarck, que acabaram atando a Alemanha a interesses diferentes dos que ela pretendia. A busca do Kaiser pelo reconhecimento da Alemanha por reconhecimento internacional encorajou uma Weltpolitik (política global), de maneira que a política externa alemã, com o “vácuo intelectual” adotou uma linguagem truculenta sem um princípio norteador.

            Kissinger acredita que se a Alemanha tivesse sido sábia e responsável, integrando o seu poderá ordem internacional existente teria tido uma tarefa árdua, mas seria melhor do temor que a Alemanha criou no plano internacional ao combinar uma mistura de personalidades explosivas com uma política externa sem consciência.
            Assim a mudança de racionalidade na política externa alemã e o abandono da Realpolitik de Bismarck acentuaram as turbulências existentes no interior de Europa e agravaram a situação da Alemanha frente aos seus vizinhos, de maneira que a política agressiva e sem princípio norteador dessa potência auxiliou a criação de um bloco antagônico ao Império Alemão que viria a ser mais cristalizado durante os fatídicos eventos que desembocariam na Primeira Guerra Mundial.

Die Deutschland krieg




[1] KISSINGER, Henry. Diplomacy. New York: Simon & Schuster Company, 1994. Pág. 137.
[2] Idem, ibidem, pág. 139.
[3] Idem. pág. 145
[4] Idem, ibidem.
[1] No original, “A Political Doomsday Machine”, provavelmente um conceito retirado com base o episódio de Jornada nas Estrelas homônimo.
[2] KISSINGER, Henri. Diplomacy. New York: Simon & Schuster Company, 1994.pág. 169.
[3] Idem, ibidem.