Acima do bem e do mal repousa todas as coisas que concernem a natureza humana.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

A batina e a fé

            O Brasil foi moldado a partir do catolicismo, mas como um país supostamente laico se tornou tão religioso nos últimos tempos?


            Historicamente, a colonização portuguesa associada com a doutrinação jesuítica formulou o catolicismo brasileiro, todo o sistema educacional escolástico é baseado nessa doutrina religiosa e até hoje temos reminiscências disso em nossa cultura. Eu não vou me dedicar à herança cultural do catolicismo nesse texto, mas vou falar da transformação de uma sociedade laica e predominantemente católica em uma sociedade neopentecostal à caminho de se tornar teocrática. Como isso começou?

         O protestantismo no Brasil é antigo, mas sempre foi uma doutrina marginal. Inicialmente o contato das populações locais com a fé protestante se deu durante as tentativas de invasão do território brasileiro no período colonial, sendo que o calvinismo huguenote apareceu pela primeira vez no Brasil em 1557 sob ordens do próprio João Calvino para a propagação da fé nos trópicos. Com a expulsão dos franceses por Mem de Sá, os protestantes do Rio de Janeiro acabaram sendo enforcados ou expulsos do Brasil.

          Contudo, o flerte com o protestantismo não se findou. Em 1630, os holandeses acabaram trazendo suas próprias igrejas protestantes para Recife, e embora existisse um coexistência pacífica das religiões por intermédio do governo de Maurício de Nassau, o final disso foi o mesmo das populações judaicas de Recife. Com a tomada de Recife e Olinda pelos portugueses, os judeus e protestantes foram obrigados a imigrar e acabaram caindo na América do Norte, fundando o assentamento de Nova Amsterdam (Hoje Nova Iorque).

           O protestantismo ficou na marginalidade até 1808, quando a corte imperial portuguesa aporta no Rio de Janeiro, nesse contexto, os britânicos, aliados dos portugueses, passaram a ter o direito de exercer a sua fé em terras brasileiras e construir suas próprias igrejas e cemitérios (separados das instituições católicas, evidentemente).


          Com o advento do Brasil Imperial e a explosão de vários grupos religiosos, as novas agremiações religiosas americanas acabaram chegando ao Brasil, seja os metodistas, presbitarianos e batistas. Os anglicanos já tinham a sua fé assegurada devido ao Tratado de Comércio e Navegação assinado por Dom João VI, e os luteranos tinham sua fé respeitada devido a crescente imigração alemã no Sul do Brasil.


         Com o advento do movimento missionário, os protestantes começaram a criar instituições educacionais no Brasil, sendo a mais famosa delas o Colégio e depois a Faculdade Mackenzie. As missões missionárias basicamente tinham por fim evangelizar os índios, fazer papel de assistência social às populações do interior do Brasil e tinha inclusive uma ideia de alfabetização bastante forte.


         Com a criação do estado laico na Primeira República, o monopólio do catolicismo na sociedade brasileira foi rompido. De fato, as uniões e os batismos realizados por outras religiões também passaram a ser reconhecidos pelo estado, embora ainda fosse necessário o registro civil.

         As ações missionárias intensificaram-se sobretudo na Amazônia e no Nordeste. Contudo, na década de 1950 é que realmente o pentecostalismo ganha força sobre as outras vertentes religiosas. Em vias de fato, o pentecostalismo e o neopentecostalismo são fenômenos recentes, e a sua proposta de teologia da prosperidade tem a ver sobretudo com a era dourada que os Estados Unidos assistiram depois da Segunda Guerra Mundial.


        Por essa doutrina, o sucesso material era uma prova não apenas do trabalho individual, mas principalmente da fé. Deus concederia aos mais fiéis objetos materiais, casas, empregos e automóveis para aqueles que realmente fizessem sacrifícios  pela religião e pela fé. Aqueles que não conseguiam ter sucesso financeiro ou profissional, então, por essa lógica, não estavam realmente no caminho divino e eram menos religiosos dos que conseguiram conquistar os seus sonhos.


       É uma doutrina essencialmente capitalista de que a fé é o motor do sucesso individual. No Brasil, esse movimento ganhou força sobretudo em 1964, quando as organizações religiosas protestantes norte-americanas textualmente apoiaram o golpe militar.


       O neopentecostalismo cresceu no Brasil na década de 70 e 80 nas comunidades mais pobres, em consonância com o aumento da desigualdade social e o advento  da fome sistemática no Nordeste. As pessoas da periferia, muitas delas ignoradas pelo regime militar  e pelos direitos básicos de saúde e educação, tinham na fé o elemento de soltura de suas insatisfações e seus receios. O neopentecostalismo prometia uma coisa diferente do catolicismo, e de sua vertente mais ativa, a Teologia da Libertação: aqueles que rezassem muito, fossem religiosos, pagassem o dízimo, poderiam ser salvos no "Reino de Deus", poderiam ser agraciados com um emprego, uma casa, ou automóvel. Poderiam curar as próprias doenças ou mesmo conseguirem ascender socialmente.


       Nessa crescente exploração da pobreza  e da fé, o neopentecostalismo saía na frente do catolicismo, tendo em vista que a doutrina católica sempre pregou o desapego material e o sofrimento como elementos de fé, inclusive o catolicismo pregava o compartilhamento das riquezas enquanto o neopentecostalismo prega justamente o contrário, a individualização da fé e das riquezas. Não existe caridade no neopentecostalismo, cada um reza por si, e doa para conseguir um lugar privilegiado na vontade divina.


      Com essa explosão religiosa, João Paulo II observava o número de fiéis católicos brasileiros diminuírem constantemente, e isso era um dos alvos de preocupação do Vaticano. A perda de terreno na América Latina ameaçaria o futuro da própria Igreja. Não a toa que o Papa visitou o Brasil três vezes e usou de todo o seu capital político e popularidade para cativar as multidões.


      Entretanto, o neopentecostalismo tinha uma ferramenta que a Igreja Católica não soube usar: a mídia. Exatamente isso que fez o neopentecostalismo crescer, o uso maciço da televisão e do rádio como ferramenta para a propagação  da fé. Os rituais teatrais do descarrego e as sessões de fogo sagrado passavam a conquistar os elementos mais impressionáveis com todo o simbolismo que provavelmente foi retirado das religiões de matriz africana.


       De fato, a organização de igrejas com capital político para comprarem um programa de TV, e depois um canal, como a Rede Record, fizeram explodir a popularidade da fé entre os mais pobres e a classe média em ascensão. O surto de crescimento econômico iniciado pelo Plano Real fez com que a qualidade do brasileiro palatinamente crescesse e a consolidação do Bolsa Família e da política de valorização do salário mínimo deram a impressão ao trabalhador normal que as coisas realmente estavam ficando melhores.

       Esse trabalhador muitas vezes associava o seu sucesso e o seu progresso financeiro à fé, e isso é um elemento relevante. Com o crescimento do número de fiéis, também cresceu o capital financeiro dessas organizações, (que não são taxadas,  inclusive não pagam impostos sobre lucros ou impostos sobre o terreno que ocupam). Com esse capital financeiro, era inevitável, houve o enriquecimento dos criadores que criaram verdadeiros impérios a la Rockefeller.


       Hoje, as igrejas são uma das modalidades de negócio com maior retorno financeiro existentes no Brasil. Não são taxadas e vivem a partir de doações. As  igrejas podem estar associadas a capitais de investimentos, manter sob seu controle empresas de comunicação, bancos e o mais importante disso tudo, Partidos Políticos.


        A laicidade brasileira nunca foi plena, mas a existência de um partido cristão com candidatos filiados às três maiores igrejas do país é um dos maiores obstáculos a um sistema democrático. Infelizmente, questões como o aborto, investimentos em pesquisa com células tronco, ou mesmo o direito ao casamento de LGBTs são travadas por uma bancada evangélica que é apoiada por uma parcela significativa da população.

      Notoriamente, membros da bancada evangélica são acusados em denúncias de corrupção, mas atrás de si possuem uma legião de fiéis que defendem suas atitudes, mesmo quixotescas, em nome da fé. É notório ainda observar que nesse panorama, as organizações religiosas foram ativas da deposição de uma presidente eleita democraticamente, e hoje fazem papel de polícia moral contra os grupos que discordam de sua doutrina proselitista.


      De toda forma, a fé tece um manto sobre a realidade e instaura hoje uma ditadura do pensamento que advoga que a única verdade está alicerçada no "amor a Cristo", evidentemente isso não é amor, quando pensamos no número de ataques contra templos de religiões africanas, no cerceamento do direito de escolha para as pessoas LGBT e na negação do aborto para casos de estupro. Sem falar, a violação de uma cláusula pétrea da Constituição, a laicidade do ensino. Agora será ofertado o ensino religioso nas escolas públicas.

      Ainda temos que destacar outros pontos absurdos, como a proposta que circulou no Congresso Nacional do perdão das dívidas para Igrejas e associações religiosas. A exploração da fé é um processo recente e que vem dando lucros imediatos, mas dilapida por completo a democracia brasileira. Nessa nova teocracia onde os tolos comandam os cegos, a batina e a fé serão as únicas bandeiras de um Brasil carcomido por sua própria história.

Entre coturnos e fardas


         Quando que o Exército Brasileiro passou a ser uma força política no Brasil?


        Em Maldita Guerra, do professor Francisco Doratioto, a Guerra do Paraguai é a consolidação do que se tornaria o Brasil. O conflito que durou seis anos e consolidou uma aliança entre três países vizinhos contra a ditadura de Solano Lopez auxiliou na formação de um exército profissional e moderno para o país que aos poucos se caminhava para o término da escravidão e para o processo de modernização estrutural e industrial que se observou no início do século XX.

General Osório comandando as tropas brasileiras na Batalha de Tuiuti. Osório era o comandante militar mais popular no período imperial e o seu envolvimento com o Partido Liberal o fazia ser bem-quisto pelos setores urbanos e liberais do Rio de Janeiro.


      O Brasil era um país agrário, com forte ligação religiosa, dependente da exportação de insumos agrícolas e conservava o seu poder na figura do benevolente e popular imperador Dom Pedro II, o Magnânimo. Ao contrário do que se imagina, a monarquia era bastante popular até o último ano do império, mas o que aconteceu foi justamente um desastre do ponto de vista institucional.


      O Brasil foi invadido em 1864, quando as forças paraguaias  tomaram Bonito e Corumbá, no atual Mato Grosso e iniciaram uma segunda coluna em direção ao Rio Grande do Sul. As tropas de Solano Lopez tinham a seu dispor armas modernas e o maior exército moderno da região, o Brasil, embora excedesse a população de todos os países do Cone Sul, era desproporcionalmente habitado, com a população se concentrando no litoral, e tinha forças armadas aquém da sua real necessidade.


      O Exército Brasileiro era pequeno, utilizava armas arcaicas, da época da Guerra da Cisplatina (1824) e tinha problemas sérios na cadeia de comando. Todo o prestígio ficava em torno à Guarda Nacional, tropas formadas normalmente por civis e membros da elite local que basicamente ficavam nas regiões onde eles foram recrutados e não tinham constante treinamento, sendo apenas alistados em situações esporádicas, para conter revoltas e às vezes correr atrás de escravos que fugiam. Hoje, o equivalente da Guarda Nacional é incrivelmente, ironia ou não, a Força Nacional, um braço policial à disposição do poder executivo que pode ser empregado em situações de descontrole em uma ou em algumas unidades da União.


       Enquanto os paraguaios continuavam avançando, passando pelo interior das províncias argentinas de Entre Ríos e Corrientes, em direção ao Rio Grande do Sul, ficou mais do que evidente que a Guarda Nacional era tecnicamente inútil. O Brasil teve que iniciar uma campanha de alistamento de soldados a partir do zero, formar homens, importar armas, e instaurar novos regimentos. Assim nasceram os Voluntários da Pátria, a primeira tentativa de soldados-cidadão do Brasil.

      O imperador Pedro II foi o primeiro Voluntário da Pátria, e muitos dos primeiros alistados realmente foram às fileiras do Exército de livre espontânea vontade. Com o tempo, esse quadro se inverteu, sobretudo quando Uruguaiana foi tomada e os paraguaios impuseram ao Brasil enormes derrotas e a Maldita Guerra parecia não ter fim em conflitos cada vez mais sangrentos. Tendo isso visto, o Império passou a exercer o alistamento compulsório para manter o contingente das tropas imperiais, e para burlarem o alistamento, as elites agrárias obrigavam os escravos a entrarem no Exército no lugar de seus senhores.

Pedro II, o primeiro Voluntário da Pátria da História

     O Exército Brasileiro nasceu racialmente misto e das camadas mais pobres. A guerra foi brutal e os brasileiros tiveram que se modernizar, inclusive para manusear o armamento novo que vinha da França e da Bélgica. Muitos brasileiros foram em direção ao exterior, para serem treinados, inclusive a oficialidade subalterna, onde tiveram contato com as ideias positivistas.
Soldados brasileiros na Guerra do Paraguai


     O positivismo tinha pilares a Ordem como meio de criar uma sociedade progressista e industrial, onde tudo seria construído de maneira orgânica, através de um senso de disciplina de todas as camadas sociais poderia-se obter o progresso, sem espaço de discussões ou manifestações próprias de uma democracia. Por esse sistema, as formas tradicionistas de poder eram tidas como obsoletas, e a monarquia era sobretudo tida como algo arcaico a ser combatido. Nos quartéis surgiu um republicanismo autoritário e profundamente nacionalista.

      As tropas de Pedro II derrotaram Solano Lopez na Batalha de Lomas Valentinas, e do exército paraguaio só restaram frangalhos, o Brasil  estava a um passo de tomar Assunção,capital paraguaia. Quando os militares brasileiros tomaram assunção, eles instituíram um governo militar sob o comando do Duque de Caxias e depois do Conde D'Eu.

      Sob lei marcial, as tropas brasileiras cometeram alguns atos de insubordinação e pilhagens (nada diferente do que os paraguaios fizeram em Uruguaiana), e a guerra ainda não tinha acabado, as tropas de Solano estavam no interior exercendo atividades de guerrilha.

Conde D'Eu e oficiais do Exército Brasileiro no Paraguai


      O Brasil acabou instituindo um novo governo paraguaio, aboliu a escravidão no país, algo  feito quase vinte anos antes que no Brasil, e colocou um aliado no poder, Cirilo Acosta. A caçada à Lopez acabou na Batalha de Cerro Corá, onde as tropas imperiais cercaram as  últimas forças de Solano Lopez e ele,  ferido, no meio da batalha foi abatido pelo cabo Chico Diabo, que acabou o degolando quando o general recusou a se render.


      A Guerra do Paraguai se arrastou muito mais do que deveria, os brasileiros sofreram com várias doenças, fome, gangrena e frio. Foram assolados pela beri-beri, por epidemias sucessivas de febre amarela e disenteria. A recusa do governo imperial em dar a guerra encerrada até a rendição de Solano Lopez foi um dos motivos do conflito ter se prolongado tanto, e com os gastos, o governo imperial entrou em crise financeira.

         Os militares descontentes culpavam o comando do Conde D'Eu, genro do imperador, e exigiam por reformas na cadeia de estrutura do Exército, inclusive pedindo sua modernização como força regular de defesa. E os militares eram a estrela em ascensão depois da Guerra do Paraguai.


        Quando a Monarquia iniciou o ano de 1870, o Império tinha uma dívida externa correspondente a dez anos do seu orçamento público, e nesses dezoito anos finais, o governo ficou pagando os empréstimos com bastante dificuldade, tendo inclusive problemas com o fluxo de caixa. Muitos projetos do Império tiveram que ser abandonados simplesmente porque não havia dinheiro para pagar.


       Nesse meio tempo tinha o problema da escravidão, que o governo imperial, mas sobretudo o Senado Imperial, empurrava com a barriga. O maior obstáculo para o fim da escravidão foi o poder legislativo (conservador até hoje), desde 1831, com a Lei Eusébio de Queiroz se discutia o fim da escravidão e o  abolicionismo ficou cada vez mais forte nas incipientes elites intelectuais e nas  populações da cidade. Era uma vergonha o Brasil ser o último país a abolir a escravidão na América.


      O Governo Imperial teve que tomar atitudes por pressão externa, sobretudo da Inglaterra, as primeiras medidas, a Lei dos Sexagenários e a Lei do Ventre Livre trouxeram muita insatisfação não só no Senado Imperial, mas também na própria Casa Imperial, a própria Princesa Isabel tinha sido inicialmente contra. O republicanismo passou a ser uma teoria política cada vez mais forte nos meios urbanos, sobretudo nas profissões liberais e nos meios intelectuais da época.

      A Terceira República Francesa exercia um certo fascínio como meio de organização política avançada da época e os meios militares ditos "progressistas" desejavam um Estado ordeiro e constitucional aos moldes positivistas.

     A questão é que o Brasil tinha tido flertes com o republicanismo desde a Inconfidência Mineira e a Confederação do Equador, até mesmo  o período regencial por muitos historiadores pode ser encarado como um ensaio de governo republicano, a experiência do  federalismo norte-americano juntamente com a ocorrência de repúblicas oligarcas em toda a América Latina seduziam cada vez mais as elites agrárias descontentes com o governo federal e que desejavam o poder.

      O que foi feito em 15 de novembro de 1889 foi um acordo entre duas vertentes republicanistas que destituíram o poder tradicional  e legítimo de Dom Pedro II, sem qualquer respaldo do povo brasileiro, a República nasceu de um golpe. Os militares assumiram o poder e não seguiram o acordo de partilhá-lo com os cafeicultores de São Paulo e com as elites intelectuais que apoiaram abertamente a deposição de Dom Pedro II. É o início do primeiro período ditatorial do Brasil.

Deodoro da Fonseca e Rui Barbosa sendo consagrados pela República


      O militarismo do Exército Brasileiro instaurou uma Ditadura chamada conveniente de República das Espadas, onde o primeiro governante, Deodoro da Fonseca (que era amigo pessoal de Sua Majestade Pedro II e um usurpador do poder legítimo) inicialmente dava mostras que iria aceitar uma nova Constituição (o Brasil tinha constituição no período imperial e era uma das mais modernas dentre as monarquias), haveria eleições em 1891 e o Congresso teria autonomia.
A República nasceu de um Golpe


     A verdade não foi essa, Deodoro e o Congresso rotineiramente se desentendiam, Deodoro não aceitava se submeter à autoridade das elites locais e para piorar o plano econômico de seu Ministro da Fazenda, Rui Barbosa, foi um desastre (ele não era economista pra início de conversa, só sabia falar bonito). A tentativa de reduzir o rombo das contas públicas e incentivar a industrialização emitindo papel moeda sem ter capital no Tesouro para dar lastro apenas fez nascer uma hiperinflação que se tornou a maior crise financeira do Brasil até 1929.

       O governo de Deodoro, em si, foi um desastre e no ápice dos seus desentendimentos com o Congresso, sobretudo em relação à Constituição de 1891, a qual previa eleições imediatas e Deodoro queria manter o seu mandato como presidente interino. Diante da recusa do Congresso, Deodoro ordena destacamentos de artilharia e cavalaria cercarem o Congresso, os senadores estavam realizando a eleição indireta para decidir o  presidente do Brasil, e diante da evidente ameaça elegeram Deodoro Fonseca e Floriano Peixoto.

     Deodoro, com o fechamento do Congresso, acabou perdendo todo o apoio popular e corria a ameaça de sofrer um golpe do próprio vice.  Sem ter opções, e completamente desacreditado pela opinião pública, ele acabou renunciando em favor do vice, Floriano Peixoto.


      O governo de Floriano Peixoto foi pior ainda, além de ter governado em estado de sítio, o Brasil enfrentou duas revoltas sérias, a Revolta Federalista e a Revolta da Armada, que chegou a ameaçar o Rio de Janeiro inclusive, tendo bombardeio da cidade por causa da recusa de Floriano em liberar os direitos civis.

O governo  de Floriano Peixoto foi um verdadeiro desastre

       O governo militar foi logo substituído pela sucessão oligárquica da República Velha e a consequente política Café com leite, tendo a alternância presidencial entre paulistas e mineiros. Após a República Espada só um militar seria eleito presidente da República, Hermes da Fonseca, sobrinho de ninguém menos que Deodoro da Fonseca.

       Já num panorama diferente, o fluminense Hermes da Fonseca foi eleito em eleições disputadas, das quais, ele conseguiu ser eleito com apoio de personagens políticos de prestígio. O governo Hermes da Fonseca enfrentou problemas, como a Revolta da Chibata e também foi obrigado a renegociar a dívida externa brasileira que tinha se tornado insolvente. Verdade seja dita, foi até certo ponto um governo estável comparado aos outros governos.

      O problema disso tudo é que em todo período da Primeira República, as Forças Armadas interferiram diretamente na política nacional, seja com manifestos, revoltas, e motins, nenhum dos governantes desde Artur Bernades conseguiu governar sem precisar se utilizar do estado de sítio. Em 1922, a Revolta dos 18 do forte exibiu o clamor dos quartéis e da baixa oficialidade por mudanças na conjuntura nacional

      Em 1924, a Força Pública de São Paulo e estacamentos do Exército se amotinaram contra o governo paulista, e juntamente com as forças armadas do Rio Grande do Sul iniciaram o ciclo de revoltas do tenentismo, chegando ao ponto máximo da Coluna Prestes.
Lideranças tenentistas em comboio ferroviário

      O governo brasileiro caminhou na corda bamba de 1922 até 1930, com o crescente temor que os militares pudessem dar um golpe e instaurar uma ditadura. O pleito de 1930 foi o ponto mais delicado desse processo quando a política do café com leite ruiu e a aliança entre São Paulo e Minas desabou.


       Os tenentistas, sedentos por derrubar Washington Luís, juntamente com o Partido Democrático Paulista, as elites mineiras e gaúchas se uniram e deram um golpe, ou melhor a "Revolução de 30", colocando Getúlio Vargas no poder.

Getúlio chega ao poder de coturno e farda, ele só sairia depois de 15 anos da Presidência

       Os militares ficaram por 15 anos como atores principais na política nacional na Era Vargas, com inclusive tendo Góis Monteiro, um notório simpatizante do nazismo, no gabinete do governo de Getúlio. Eles apoiaram o Estado Novo e a cassação dos direitos civis de comunistas e membros de esquerda, e muitas vezes argumentavam com Getúlio se o Brasil devia ou não ficar neutro na Segunda Guerra.

       Verdade seja dita, os anos 30 foram o ápice do militarismo brasileiro e Getúlio entendia isso muito bem, não a toa que seu governo era inspirado no fascismo italiano (por predileções próprias e por pressões também dos líderes tenentistas).


       Entretanto, a entrada do Brasil na Segunda Guerra foi o ponto de ruptura. Pela primeira vez as Forças Armadas se envolviam seriamente num conflito armado na Europa, e pela democracia inclusive, um Exército mal-preparado e mal armado como era a FEB do General Dutra, se tornou uma força profissional democrática de soldados-cidadãos.

Primeira Guerra memeal: A Cobra está fumando


       Esse intercâmbio de ideias entre os soldados brasileiros e americanos moldou um movimento dentro dos coturnos e nas fardas pelo fim da ditadura brasileira e o início da democratização. Getúlio compreendeu isso e anunciou que no final do ano de 1945 ele iria reinstaurar as eleições. Era tarde, Getúlio sofreu um golpe dos mesmos militares que ele mandou pra a Itália.

     Em 1946 foi promulgada uma nova constituição, liberal e democrática, que inclusive legalizava pela primeira vez o PCB. A corrida presidencial estava ocupada por duas figuras militares de prestígio, General Gaspar Dutra, líder da Força Expedicionária Brasileira, herói de guerra e reconhecidamente uma figura de prestígio junto à diplomacia americana, e Brigadeiro Eduardo Gomes (daí vem o nome do doce brigadeiro, o quitute que era feito para financiar a campanha do oficial da Força Aérea).



Eduardo Gomes
      Eduardo Gomes era tenaz opositor de Getúlio Vargas, tendo sido o criador da Força Aérea Brasileira (FAB), ele foi uma das lideranças tenentistas que acabaram se associando com a direita brasileira e levaram à derrocada do governo getulista. Getúlio, mestre da arte política, apoiou tacitamente Dutra, que acabou sendo eleito em 1946.


      O governo Dutra foi um dos piores governos da História do Brasil, sendo apenas comparável ao governo de Floriano Peixoto, Fernando Collor, Sarney e  o governo Dilma-Temer. O Brasil, pela primeira vez na história, tinha um câmbio valorizado e era credor das potências europeias que lutaram na Segunda Guerra Mundial.






    O ufanismo brasileiro estava nas alturas (assim como no final da Era Lula), o Brasil era reconhecido pelos Estados Unidos como um país parceiro e foi membro fundador da ONU. O Brasil iria sediar a próxima Copa do Mundo (1950) e estava evidente que a herança da industrialização de Vargas estava dando frutos.

     Entretanto, Dutra não soube aproveitar o momento-chave, a janela de oportunidade que poderia ter definido o rumo do Brasil, pelo contrário, as reservas cambiais brasileiras acumuladas na época estavam na maior parte indexadas em libras-esterlinas (que se desvalorizaram depois do final da guerra) e em ouro, com a conferência de Bretton Wood, o padrão ouro-dólar seria adotado e todo ouro que circulado no mundo deveria ser convertível em dólares.
Dutra recebendo a medalha do menino de pior governo da História do Brasil


      Como a oferta de dólares era justamente escassa, o dinheiro inteiro acumulado não servia pra nada. Dutra teve a ideia de comprar as ferrovias inglesas com as reservas cambiais restantes, e como abatimento de dívidas. Nem preciso dizer que as ferrovias ficaram inúteis depois que a indústria automobilística chegou ao Brasil na época do JK.

      O Plano SALTE, seu plano de recuperação e desenvolvimentismo econômico, depois que as reservas cambiais brasileiras se exauriram e o câmbio se desvalorizou frente ao dólar, baseou-se na Saúde, Alimentação, Transporte e Energia. Dutra criou a primeira rodovia do Brasil, que hoje é batizada em seu nome, que liga Rio a São Paulo, proibiu os cassinos e construiu hidrelétricas no Rio São Francisco.


       Seu governo só foi isso, desvalorização do cruzeiro, o fim das reservas cambiais, e quando as coisas deram errado, partiu pro desenvolvimentismo e fez a rodovia Dutra. Nem preciso dizer que nas eleições de 1951, Getúlio voltou com uma vitória massacrante contra (de novo) Eduardo Gomes.

       Os militares não engoliram seco a volta do velhinho, o mesmo Getúlio que eles depuseram seis anos antes, principalmente Eduardo Gomes, notório desafeto político de Getúlio. O jornalista Carlos Lacerda conseguia arrebatar os ouvidos de milhares de cidadãos fluminenses e paulistas com os seus discursos na Rádio Nacional e na TV Tupi, denunciando o governo de ser corrupto e inepto, sobretudo de exercer um monte de irregularidades nos processos licitatórios para grande obras.


"Será que dá pra acertar o Lacerda aqui do Catete?"


        Quando houve o atentado contra Lacerda em 1954, na Rua Toneleiros, era justamente um oficial da Força Aérea, a mesma de Eduardo Gomes, que estava fazendo a escolta do jornalista. O oficial foi morto na troca de tiros e Lacerda saiu com o pé machucado (dizem as más línguas que ele atirou de propósito no próprio pé).


"Nunca imaginei que uma unha encravada pudesse doer tanto"

       O caso tomou uma enorme repercussão política na época, com de novo, Carlos Lacerda, querendo a cabeça de Getúlio e exigindo a renúncia do presidente da República na TV Tupi. O fato é que as elites brasileiras já estavam engasgadas com Getúlio por causa da legislação trabalhista, a CLT, o aumento de 100%  do salário mínimo que o Ministro do Trabalho, João Goulart, deu para os trabalhadores para compensar as perdas com a inflação, e sobretudo a estatização do petróleo brasileiro, com a Petrobrás.

     Quando mais se esmiuçava o fato, mais ia se comprovando o envolvimento de gente do Palácio do Catete no atentado, até que uma das denúncias apontavam o mandante como sendo Gregório Fortunado, guarda costas pessoal de Getúlio. Foi merda no ventilador.

     A Força Aérea exigiu a apuração do caso, o Congresso e o Exército exigiram o afastamento definitivo de Getúlio. O  Ministro da Guerra, Zenóbio da Costa, soltou na imprensa um comentário que Getúlio iria se afastar (e em caráter definitivo), tudo isso foi piorando a situação de Getúlio. Em 1954, o fim foi único, Getúlio vagou pelo Palácio do Catete como um morto-vivo, sem responder ninguém.

      Ele vestia um robe de seda listrado e levava no bolso um revólver com cabo de madrepérola, presente de Franklin Roosevelt.  Getúlio se trancou no seu quarto, e deixou na mesa de canto uma cópia do bilhete de suicídio (a outra foi entregue para João Goulart no Rio Grande do Sul), e atirou contra o próprio peito.

      O suicídio de Getúlio evitou um novo golpe militar.



      Mas não deixou as eleições de 1955 calmas. O vice-presidente Café Filho dizia-se incapacitado por problemas de saúde e se ausentou da presidência por uns quatro meses, a presidência exercida por Carlos Luz não admitia a ideia que tivessem eleições em 1955 justamente para não dar a chance de algum associado de Getúlio fosse eleito.

    De fato, o Brasil já passou por uma bagunça institucional antes e ninguém lembra hoje de Café Filho (nem se lembrará de Michel Temer), a questão que o candidato na disputa eleitoral era Juscelino Kubitschek, o então governador de Minas Gerais.


"Vou com meu fusquinha direto pra Brasília. Não, pera"

   As  eleições de 1955 foram boicotadas pelo próprio governo e quando JK foi eleito, o presidente Café Filho milagrosamente apareceu renascido das cinzas e disse que estava apto pra governar (ou seja, iria embaçar toda a eleição). Henrique Teixeira Lott, general do Exército Brasileiro, se levantou contra a insegurança jurídica que circulava em torno da posse de JK e garantiu que o resultado das eleições seria respeitado e garantiu a posse de JK. Colocou as tropas na rua para garantir a manutenção da ordem e JK foi empossado presidente no Catete.

   Lott é uma exceção de um padrão que se observou em todo o período republicano, ele foi o único general que realmente defendeu a legalidade e garantiu o resultado das eleições de forma democrática (outro exemplo foi o general Miguel Costa na década de 30). De toda forma, Lott foi tratado como herói nacional e defensor da legalidade, sendo reconhecido como verdadeiro patriota (e foi justo inclusive).

Lott forçando um sorriso meio sem graça

   Em 1960, Lott concorreu à presidência com ninguém menos que Jânio Quadros. Sem apoio de Juscelino e com uma propaganda sem apelo popular, Lott, o último militar legalista, acabou sendo derrotado. O resultado poderia talvez ter sido diferente, caso Lott tivesse sido eleito, a existência de um militar nacionalista e constitucionalista poderia ter impedido os militares brasileiros terem derrubado um governo democrático em 1964.

    A bagunça foi evidente, em 1961, Jânio Quadros irrita os setores tradicionais brasileiros com a sua política irreverente e acaba renunciando depois de oito meses. Para piorar as coisas, o seu vice-presidente, João Goulart (ex-ministro do Trabalho de Getúlio) realizava na época visita na China maoísta. O resultado foi terrível, os militares não aceitaram Jango assumir a presidência com a suspeita dele ser comunista e querer instaurar uma república sindicalista.

     A solução encontrada pelo PSD e pela UDN foi um acordo, Jango assumiria a presidência, mas o Brasil seria parlamentarista. Isso quer dizer, teve um golpe parlamentar para que Jango não tivesse plenos poderes e o Congresso pudesse legislar sobre ele. Tancredo Neves foi o primeiro primeiro-ministro do Brasil republicano.

      Só que isso não estava dando certo, cada gabinete acabava durando no máximo três meses e o governo entrou em um vazio institucional, o PTB, liderado por Brizola, conseguiu o retorno do presidencialismo a duras penas. Os militares não engoliram bem o fato de Jango ter plenos poderes agora.

    O discurso da Sé foi a gota d'água, Jango com a sua proposta de reforma agrária cutucou a onça com vara curta e o resultado foram os setores militares se associando com o capital industrial, os partidos conservadores, a direita católica e o setor agrário. Com a ajuda da diplomacia americana, aconteceu o golpe, o general Mourão Filho deslocou seus destacamentos de Juiz de Fora até o Rio de Janeiro. Jango saiu da cidade e foi pra Brasília, vendo que não teria apoio parlamentar e que o resultado seria um banho de sangue foi pro Rio Grande do Sul.

    Sem que ninguém soubesse onde estava o presidente, o presidente da  Câmara em sessão especial declarou vaga a presidência da República, e com esse vazio de poder, estava aberto o caminho para os militares.

"Jango, você foi desrespeitoso. Você nem me convidou pra sua casa tomar um café e vem me pedir ajuda"

    Castelo Branco, Costa e Silva, Medici, Geisel e Figueiredo. O Brasil teve cinco ditadores, cada um à sua maneira. Castelo Branco enganou a todos dizendo que iria ter eleições em 1965, mas ele acabou caçando os mandatos políticos e estendendo o seu governo ainda mais que o esperado. Instituiu um ajuste fiscal (igual ao do Temer), congelou os salários mínimos e aumentou a concentração de renda. Costa e Silva caçou todos os direitos políticos e o habeas corpus com o AI-5, iniciou o período linha-dura, consagrado com torturas, prisões arbitrárias e exílio na era Medici.


      A detente só começou quando o governo Carter começou a condenar as violações dos direitos humanos na América Latina e Geisel prometeu a abertura, lenta, gradual e segura. O Brasil amargou 21 anos sem ter direito ao voto, sem ter liberdade de imprensa, tendo prisões arbitrárias e violações aos direitos de índios, lgbts, trabalhadores sindicalizados e artistas.


      Os coturnos e fardas só saíram do Palácio do Planalto numa eleição indireta, e infelizmente, tivemos que amargar ainda outro presidente impopular, José Sarney.


      Desde então, o que vem sendo feito das Forças Armadas?


      Penso que as Forças Armadas retiraram-se do palco político por outras questões. A Ditadura Militar criou atritos e insubordinações dentro da própria tropa, com grupos e facções brigando entre si pelo poder, o que minou até a estabilidade das Forças Armadas brasileiras, os militares continuaram defendendo os seus interesses sim dentro do Congresso, tendo inclusive ex-oficiais seus defendendo o aumento salarial, a renovação do contingente, etc. Um desses é Jair Bolsonaro.


     As tropas militares hoje tem a tarefa de defender a Amazônia legal contra incursões estrangeiras e de grupo narco-traficantes, envolveram-se nas missões de paz do Haiti ( de forma até exemplar), mas o problema é que justamente as Forças Armadas, que tinham se desvencilhado da política, estão retornando.


      Com a Comissão da Verdade, que apurou os excessos e os crimes da Ditadura Militar, inclusive de oficiais da ativa, os militares tiveram um atrito muito grande contra as investigações do Governo Dilma. Com isso, associada a crescente popularidade da direita radical e a extrema-direita, o impeachment do governo Dilma e ação deliberada de setores políticos reconhecidamente corruptos na política, a sensação de vazio institucional está levando à ideia que o retorno da Ditadura iria trazer normalidade ao Brasil.


      Enganam-se porém, os militares foram os atores políticos nos eventos mais conturbados que o país sobreviveu, deram golpes, apoiaram ditaduras e foram responsáveis por eventos autoritários que não devem ser esquecidos. Não estou defendendo o ódio contra as Forças Armadas, mas existem elementos dentro dos quadros militares que querem se aproveitar da insegurança jurídica, de um governo corrupto impopular como o governo Temer, para assumirem de vez o poder e instituir um projeto de governo conservador, autoritário, cristão e contra as minorias.


     O problema que as fardas e os coturnos não são a solução para um país democrático e qualquer iniciativa de intervenção pode terminar em desastre. Observamos estarrecidos o modo como estão desenrolando os conflitos nas ocupações dos morros do Rio, com a morte de cidadãos inocentes num novo capítulo da guerra contra o tráfico.

     Mas o mais grave é a ascensão de um líder da extrema direita, Jair Bolsonaro, jingoísta, contra os direitos das minorias, à favor do porte das armas, de um governo autoritário, fazendo defesa de reconhecidos torturadores do período militar. Bolsonaro representa uma ala existente na sociedade brasileira que vê com bons olhos a destruição da democracia e a perpetuação do poder do totalitarismo.

      A declaração do general Hamilton Mourão é pior ainda, ela atesta que se não forem resolvidas pelo poder judiciário as denúncias de corrupção, as Forças Armadas poderão intervir e consolidar talvez outro governo de exceção. O problema que desde a Constituição de 1988 é proibido que oficiais da ativa emitam opiniões políticas publicamente e o comandante do Exército, general Villas Boas limitou-se apenas a um leve comentário e não puniu o oficial por indisciplina (como seria feito em qualquer lugar do mundo).


    Enquanto o governo afunda num mar de lama, maior a popularidade das Forças Armadas e é cada vez mais crescente o número de brasileiros que querem o retorno dos militares no poder.. Se isso acontecer, entraremos em mais um novo ciclo de autoritarismo e barbaridade. O Brasil realmente não é feito para amadores, um país com enorme potencial sempre será refém de seu próprio passado,




 

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Ao meu amor

     Eu nunca irei encontrar uma mulher que me amou tanto quanto você, eu nunca irei encontrar alguém que lutou tanto por mim e me fez me apaixonar todos os dias como você. Você me fez sorrir quando tudo que eu tinha para dar eram lágrimas. Você me ensinou a me amar de novo como sendo parte de você e  me colocou no colo quando meus pulsos foram cortados.

      Eu te amei em todos os 365 dias, todas as 8760 horas e 525600 minutos que passamos juntos como um casal. Em cada segundo que meus olhos piscavam olhando o seu rosto e seu corpo nu eu agradecia por ter alguém que me amasse apesar de todas as nossas brigas, todos os nossos problemas e o nosso desespero.

      Estou com o espírito embargado em lembrar como tudo acabou, em como nosso instante, o nosso espírito de amor foi se apagando como uma vela que se queimou no vento gelado da tristeza. Tantas pessoas queriam que estivessemos separados, mas coube a nós tomarmos caminhos diferentes;

      Nunca te agradeci por ter sonhado por nós dois, nunca esqueci das mágoas que fizemos passar um ao outro. Eu sei que foi triste não termos conseguido ficar juntos, eu sei que foi trágico eu ter abandonado tudo e ter me segurado em seus braços,sem saber como iriamos nos sustentar. Eu digo adeus...


      Não sei se nesse vale de lágrimas irá ter um recomeço, não sei como irei ficar sem te ver mais uma vez. Eu te amei muito, e dói cada vez que meus dedos batem nessas teclas, como as navalhas que cortaram os meus pulsos quando não sabia mais o que fazer para ficarmos juntos. Eu sofri tanto quando você não apareceu, quando eu fiquei quinze horas esperando ter notícias suas e você estava sendo humilhada num canto escondido do interior, na mira de uma arma.

     Eu sofri tanto quando você voltou machucada, me pedindo desculpas por ter sido maltratada, com a maquiagem borrada e tantos ferimentos no seu coração juvenil. Eu te amei tanto quando vi que você também era frágil, e tentei do meu jeito tentar te proteger. Sei que muitas vezes fui muito duro, às vezes era muito rígido, mas eu te amava de verdade, e me preocupava com você chegar tão tarde em casa, sair com suas amigas sem saber se você iria voltar.

      Eu me preocupei com você durante esses doze meses, eu me endividei para que você não precisasse lutar tanto por nós dois, vendi os meus livros para que pudessemos ter um teto e fazer amor juntos como dois verdadeiros amantes. Eu adorava brincar com o seu nariz, eu adorava tomar banho abraçado com sua pele macia, eu ria quando você ficava irritada por conta dos hormônios. Sentia ciúmes quando outros caras olhavam para você, mas sentia a inveja deles quando sabiam que eu era o seu namorado.


      Esses últimos dias têm sido terríveis em saber que não terei você dormindo do meu lado, que não assistiremos mais nossos filmes debaixo dos lençóis, que não iremos fazer palavras cruzadas juntos e que não poderemos mais nos beijar quando criavamos vontade.

     Adeus meu amor.

     Eu te amei e continuo te amando.



sábado, 26 de agosto de 2017

A navalha

        O corte incisivo do fio de navalha pode proporcionar um barbear rente no rosto de qualquer homem minimamente preocupado com sua aparência, mas curiosamente, a mesma lâmina de aço em contato com a pele pode proporcionar uma das sensações mais desconfortáveis, conforme a pressão que exercemos com as mãos.

       Ontem, contrariamente do que tinha meditado toda essa semana, a navalha que tinha aposentado na gaveta, apareceu em uma das minhas mãos. O sulco da minha carne seguia de forma rubra durante o escaldante banho enquanto meu rosto olhava sem muito entusiasmo para aquela mistura de cores que saía de meus pulsos.

        A água em contato com meu sangue ardia conforme meu coração bombeava sem entusiasmo e o ralo consumia toda a minha energia vital que havia se esvaido. Lembrei-me do quanto havia me prometido não cometer besteiras, mas me pareceu nem um pouco equivocado quando senti o sangue sair do meu corpo e ir ao encontro da água.



         Dois cortes na altura dos pulsos, onde antes eu sentia falta de um relógio, hoje não mais. A mão esquerda sinistramente se estendia pelo esquife enquanto pacientemente a água inundava meus olhos. Cogitei desistir da ideia, pensei se não seria melhor voltar para casa dos meus pais e só ouvir uma dúzia de reprimendas. Pelo contrário, decidi continuar.

        Os últimos dias serão um foco dos meus estudos no futuro, serão o que irei visitar na memória como o ponto mais baixo do meu amor próprio e de minha própria compreensão como ser humano. Ecce homo? Não, não me sinto mais como um ser humano, pelo contrário, me sinto como um objeto depois de sucessivas torturas e sofrimentos pelo que venho passando.


       O fim pareceu-me cada vez mais sedutor justamente pelo seu caráter rígido. O fim é apenas o fim, não há meio termos, não há recomeços, e ninguém realmente lamenta quando o fim acontece. A minha vida passou como um filme, saboreei por um momento a minha infância na casa do meu avô. 

       Ele sorria enquanto eu ia ao seu encontro, eu segurava a sua mão enquanto ele me acolhia nos seus braços quando eu saía daquela caixa d'agua. Hoje me sinto preso de novo naquela caixa d'água. Meu avô, um dia me disse que as coisas iriam melhorar, ele e eu somos muito parecidos de certa forma, mesmo não termos tido muito contato nos seus últimos anos de vida. Foi um erro.

      Eu fui o último neto a vê-lo com vida, e aquele sofrimento que foi o câncer me fez jurar que nunca iria passar por aquilo de novo. Meu avô viveu de forma honesta, trabalhou durante a vida inteira e por uma injustiça, foi maltratado pela quimioterapia, pelos médicos insensíveis e pela doença que se espalhou por todo o seu corpo.

      Eu quase nunca falo disso, e acho que sei o porquê. 

      Enquanto a água caía, me lembrei do sorriso da minha irmã, logo depois do seu nascimento. De seus olhinhos pequenos, de suas mãos delicadas de criança. Me lembrei de quando a ensinei a andar, e com a felicidade dos nossos momentos fraternais na casa dos meus pais. Me senti responsável por ela no momento que a vi no hospital, e me sinto culpado de ter sumido nesse último ano.

      A minha irmã foi provavelmente a única pessoa que me amou sem realmente me cobrar nada.


       Lembrei-me de meu pai, de seu rosto por vezes severo, por vezes gentio. De sua forma bruta de falar, muitas vezes intolerante, me lembrei que ele me amava como filho, às vezes como amigo. Por vezes brigávamos, discutíamos, sempre pensamos de forma diferente, mas às vezes, bem raras vezes, nós concordávamos. Sempre tive orgulho de tê-lo como pai.

      Minha mãe foi a mulher mais bela e mais devotada aos filhos que vocês podem imaginar, ela era uma modelo. Coitada, como ela sofreu, e sempre foi meio calada. Ela tentou me salvar várias vezes, mesmo quando eu realmente intransigente. Não, não que ela soubesse expressar o seu amor, muitas vezes era algo bem subjetivo. Mas hoje eu sei o quanto ela sente por eu ter saído de casa.


       Meus amigos. Gerson, meu irmão mais velho, que me deu vários conselhos enquanto estavámos cercados de dúvidas, olhávamos ao nosso redor, sentados em um banco, e falavamos da vida. Por vezes, aparecia o Tadashi com um litro de chá gelado, outras vezes o Ayub que me pedia para fumar cachimbo (mesmo eu sabendo que ele não devia). Fui feliz naqueles momentos em que ficávamos tarde da noite num banco de cimento na frente da banca de jornal.


       Bruno e Rodolfo. Que grandes amigos! Mesmo nas horas mais difíceis, eles estiveram do meu lado. Bruno sempre com o seu jeito laborioso, com o astral lá no alto, eu não conseguia ficar triste perto dele. Tinha uma completa consideração e lealdade por esse homem que tive orgulho de dizer que era o meu amigo. Sinto-me mal de por vezes ter sobrecarregado nossa amizade, de outras vezes, tê-lo decepcionado. Sinto-me mal por ter sido apenas o Alan.

      Rodolfo, a pessoa que eu devo de forma inestimável. Um eterno amigo, espero que o universo pague por toda a sua bondade e paciência que ele teve comigo. Espero que ele consiga seus sonhos e que ele seja feliz. No pior momento da minha vida, ele me ofereceu um teto e não se negou a me dar um prato de comida. Muitas pessoas podem falar coisas horríveis dele, mas na realidade, Rodolfo é como eu no fundo, tentando fazer o melhor na medida do possível.




       Eu senti minhas forças irem enquanto a água ficava cada vez mais vermelha. Ontem, meus sonhos que já não eram muitos, ficaram cada vez mais confusos. Ontem, desisti de querer lutar, será que eu já não desisti há algum tempo?

       Meus olhos se encheram de lágrimas, a água quente combinava numa orgia sinistra com a água salgada que saía de meus olhos. Eu sabia que eu iria morrer se ficasse mais dois minutos naquela banheira. Olhei para os azulejos e tentei me lembrar da casa dos meus pais. Lembrei-me do quarto onde passei várias noites escrevendo, rodeado de livros (que infelizmente tive que vendê-los), da minha máquina de escrever e dos quadros que eu havia pintado.

       Lembrei-me das roupas, da coleção de chapéus, dos filmes que eu gostava, dos videogames e da cama. Aquela cama de solteiro de madeira, com os lençóis azuis, num quarto completamente azul. Aquela cama que me acolheu nos momentos mais difíceis, que me viu muitas vezes deprimido e chorando durante a noite. Enquanto o guarda-roupa seguia insensível durante as noites frias de inverno.


       Eu fui um privilegiado de ter tido esses momentos....


       Quando Giovana chegou, ela me tirou da banheira e chorou. Cobriu meus pulsos e disse que não queria que eu fizesse isso, que era melhor eu voltar.

       Meu Deus, como eu a amava. Hoje não sei o que mais sinto, passamos por tantas coisas. Foi um estupro, foi um sequestro. Passamos fome juntos, muitas vezes eu tinha minhas crises de depressão, outras vezes era ela que ficava mal. Ela não era uma pessoa ruim, não fazia maldades, e sim, ela lutou o quanto pode.


       Ela ficou pagando sozinha a conta de casa por vários meses quando eu me separei do meu trabalho, por vezes o dinheiro faltava e fazíamos as contas com matemática cartesiana, comer ou pagar o aluguel?

        Eu não me arrependo de ter a conhecido, não me arrependo de ter a amado.


         Ela me deitou na cama e chorou. Me beijou e disse o quanto que me amava, mas que as coisas não estão mais dando certo. Hoje eu não tenho mais o que dizer, o amor não foi suficiente no nosso caso e não sei, com meus pulsos ainda machucados, acho que meu coração bateu o que tinha que ter batido e agora está quebrado no meio. 


        Sinto muito pelo texto longo, e peço desculpas a todas as pessoas que o leram, mas principalmente, às pessoas que ficaram ao meu lado e eu não correspondi às expectativas.


Sonâmbulos

          Faz  aproximadamente um ano que minha vida deu uma reviravolta inesperada, uma completa perversidade do destino combinada com a livre iniciativa de um espírito revolto. Nesse único ano de sonambulismo, estive muito preso à ideia dos meus próprios sonhos, mas a verdade que todos os meus dias se tornaram terríveis pesadelos.

        Em paralelo, acredito que toda a juventude pode ter passado por isso, pelo horizonte de expectativas de um futuro melhor, e pela triste realidade de descobrirmos que não somos realmente livres. O espírito do homem sempre foi o de buscar a liberdade e a independência, mas a verdade é que temos medo da liberdade.

       Estamos reféns filosoficamente do nosso passado, do outro  século que se prolongou entre a intolerância e o ódio, somos os filhos do fracasso, da incompreensão e da cobiça. Nossa geração é a única que foi realmente preparada para ser melhor que as anteriores, e sim, nós fracassamos. 

       É um fardo que iremos levar, um mundo cujas responsabilidades se somam e o futuro nos engana. Lidaremos com menos de trinta anos o desafio do aquecimento global, de uma economia hipertrófica onde as sucessivas secas irão ser rotineiras, que a subsistência da humanidade será refém do caráter cada vez mais escasso da água potável. Ficamos absortos a isso enquanto discutimos trivialidades no Twitter ou curtimos as fotos no Instagram, mas a verdade é que não temos soluções para os nossos próprios problemas.

        O desemprego se soma e traz consigo todas as mazelas possíveis de uma economia de mercado cada vez mais cruel e impessoal, ao mesmo tempo que a tecnologia nos poupa de trabalhos braçais desumanos, ela retira os postos de trabalho de uma população mundial que vem crescendo em exponencial. É inevitável uma catástrofe social dentro dos próximos dez anos quando a juventude será sufocada pelo mercado de trabalho.

      Na verdade, pela falta de trabalho. O ofício intelectual é ameaçado pela nova teocracia neoliberal que valoriza a composição dos números e dos índices da Bolsa de Valores, os bancos que causaram o maior pandemônio econômico dos últimos tempos e que foram socorridos pelo Estado, agora voltam ao seu papel de agiotagem e rasgam as esperanças de qualquer trabalhador obrigado a se ver na condição de devedor. Nossos novos tempos valorizam a riqueza, mas na verdade não a produzem, apenas a roubam.

        A internet nos uniu ao mesmo tempo que nos distanciou, temos agora a maior oportunidade de acesso à informação de toda história da humanidade, mas continuamos cegos. O pior de tudo, às vezes, conscientemente, e ficamos absortos quando políticos envelhecidos pelo tempo tomam a iniciativa que irá impactar completamente o nosso futuro. 

          Seja um Michel Temer rasgando a legislação trabalhista consolidada pela CLT, conseguida com muito custo, em nome "do mercado", seja um Donald Trump fechando os muros de seu país e criando uma nova Idade Média: O fato é que a crise de representatividade nunca foi mais séria do que agora.

          Nesse último ano, eu descobri o que é ser um desempregado, descobri o fantasma de ser um devedor e a humilhação de ser refém do capital artificial dos bancos, mas pior do que isso, descobri o quão grave é a sonambularia que cegou todo o nosso triste esquecimento. Não tenho mais moral nem física nem psicológica para acusar um governo reconhecidamente corrupto, associado a um sindicato do crime e referendado pela corte de juízes. É um escárnio falar sobre como nosso futuro foi roubado.

        Enquanto vocês leem essas palavras, (se é que a leem), continua o genocídio do povo sírio nos seis anos que se arrastam  a Guerra Civil. Enquanto vocês estão no Snapchat, a Ku Klux Klan está ressurgindo em Charlotteville  juntamente com os neonazistas pregando a intolerância e o ódio. As fronteiras do nosso mundo se fecham com o medo e somos prisioneiros do esquecimento.


          Não deveria mais tratar sobre isso, mas o último sonho que tive foi de uma sociedade justa em que todos os homens tivessem a oportunidade de seguir os seus sonhos, que tivessem o mínimo para sobreviver num mundo cada vez mais impessoal e hostil. A questão é que a natureza humana conduz ao exercício trágico de ruptura com tudo o que sonhamos e a liberdade é apenas uma franca piada.

          Desta pessoal que foi humilhada por pensar diferente, que passou fome por não ter tido forças para lutar e que não correspondeu as expectativas nesse mundo pouco carismático, eu digo de coração, meu amor por tudo que eu conheci se foi no momento que a fantasia se descortinou.



      Não tenho esperança de que o futuro seja melhor, não tenho esperança que o racismo irá acabar, que a homofobia irá desaparecer, o desemprego, nem a fome. Infelizmente a intolerância é praticada por gente comum em posições razoavelmente comuns, e enquanto minhas últimas palavras se findam, relembro que a insônia de nossos tempos é justamente resultado de nossa incapacidade de abrir justamente os nossos olhos para o que segue errado, quando justamente seremos a geração que irá pagar o fardo das outras anteriores.

       Não acredito que minhas palavras irão mudar o mundo, nem acredito que esteja sendo lido nesse exato momento. Estou apenas refletindo que no espelho nada aparece senão um semblante abatido de dor e sofrimento; Adeus admirável mundo novo.

domingo, 23 de julho de 2017

O sono

      Ela dorme num sono delicado de criança, ela fecha seus olhos pesados e abre a sua boca, a respiração fina toma o quarto inteiro com o abraço delicado de Morfeu numa noite de sábado. Não tinha outra coisa senão acompanhar o seu sono pesado com olhos doces e preguiçosos, tenho vergonha de ligar a luz e vou em direção à varanda.

       Revisito alguns textos, ando preocupado esses dias. Olho para a varanda de um prédio logo à frente, há um velho num dos apartamentos olhando para a rua com a luz ligada, somos dois companheiros numa noite fria de julho. Ele com sua camisa amarela e o semblante pesado, me olha enquanto sua cabeça brilha com a luz branca da lâmpada incandescente. É curioso ver como às vezes somos invisíveis.
        Gostaria às vezes de corrigir alguns erros desses últimos meses, de não ter sido tão bruto e enérgico, brigar sempre cria uma dose de arrependimentos. Sair de casa foi uma escolha prematura, mas o que havia a ser feito? Certas horas eu penso se poderia voltar atrás, mas me convenço que um homem deve assumir seus próprios erros, mesmo que não tenha força para sobreviver.

       Não ouso incomodá-la, ela está tão delicada debaixo das cobertas, sem se preocupar com o nosso aluguel que não foi pago ou porque estamos sem dinheiro para comer. Eu me sinto inútil sem meu emprego, me sinto covarde inclusive, ela que segurou todos os nossos desafios, nunca questionou o seu amor por mim. Sinto que seja verdade o que dizem, o amor é realmente mudar a alma de casa.

      Eu sou uma peça da mobília desse minúsculo apartamento, tal como o microondas quebrado, a televisão que desliga do nada ou a geladeira que faz um barulho desgraçado. Ela sabe que eu sou o porto seguro em toda essa triste alegoria que se chama de vida, e ela também sabe que representa esse papel para mim. Coragem é lutar todos os dias para tentar ser feliz.

      Nós não somos felizes, não porque não queremos, mas porque não nos foi permitido um minuto de paz. Sempre no aperto e no desafio de conseguir o dinheiro do dia seguinte, muitas vezes ficamos sem chão, muitas vezes brigamos, nos machucamos e tememos o nosso término. Eu não penso nisso com certa frequência, mas confesso que já pensei algumas vezes.

      Sim, eu realmente fui irresponsável em certas escolhas e não sei o que pensar nisso, mas o que eu sei é que inevitavelmente faria as mesmas coisas. Amar é proteger todos os dias as pessoas importantes de sua vida, eu me preocupo se as coisas irão ocorrer bem, se ela irá voltar para casa em segurança e se ninguém irá maltratá-la. Quando você namora uma transsexual é preciso ter cuidado em dobro, não porque o amor seja uma fonte inesgotável de problemas, mas num país que se mata como insetos travestis e homossexuais, a semente do machismo e da intolerância sempre pode acabar com o único suspiro de uma vida.

       Eu estou feliz por ela estar em casa, deitada e dormindo de forma despreocupada na cama que dividimos durante os nossos dez meses de namoro. Estou feliz por ela hoje não se preocupar em ter que enfrentar os leões e trabalhar até tarde para por comida dentro de casa, essa mulher é a única pessoa que conhece de verdade nossos problemas.

       Eu amo pensar que a sua transsexualidade não é um defeito, nem uma escolha, mas sinceramente, uma dádiva. Se nos encontrássemos em outra condição, possivelmente não estaríamos tão dispostos a se sacrificar um pelo outro, a ligação especial de nossa relação é um recorte de papel numa ilha de esquecimento. Hoje, o sexo é a única coisa que move os relacionamentos tradicionais, assim como o dinheiro e ambição, o casamento é um contrato, mas ninguém realmente se doa quando não se está contente com o outro. Eu sei que ela me completa da mesma forma que eu ouso dizer que eu a completo.

         É difícil tentar explicar isso para quem não compreende o significado da palavra amor, amor é um conceito universal e muito amplo, amor não tem gênero, não tem identidade, não tem sexualidade, amor é algo essencialmente puro. Ouso dizer que o amor é algo que perdemos na infância quando vamos para a escola.

          Hoje eu declaro com a mesma convicção que eu tive no início, eu namoro uma transsexual. Ela não é perfeita, ela muitas vezes me desaponta, muitas vezes esconde coisas de mim e muitas vezes me magoa. Eu sei disso, eu também sou assim, eu também não sou perfeito. O fato é que estamos dispostos a lutar todos os dias para sermos felizes, não ricos, não poderosos ou mesmo não lutamos por status, lutamos para ficar juntos a despeito de todas as pessoas contrárias. E são muitas. Mas o amor tem dessas coisas.

         Ela desapareceu essa semana por quinze horas, por quinze horas eu não tive notícias dela. Por quinze horas eu me preocupei, mandei mensagem, telefonei. Por quinze horas eu procurei todos os amigos, procurei em todos os lugares e cogitei ir para a delegacia. Eu chorei incontrolavelmente quando perdi minhas forças, eu me desesperei quado ela não voltou aquela noite e duvidei que ela estivesse viva. Achei que eu a tinha perdido.

         O sequestro é o mais perverso dos crimes porque não dá pistas de que algo ruim está acontecendo.

         O amor que trouxe tanta felicidade poderia estar enterrada numa vala qualquer no meio do nada. Namorar uma transsexual é se preocupar todos os dias se ela vai voltar viva, uma coisa que a maioria dos casais não precisa se preocupar. 

         Depois de quinze horas, ela me mandou mensagem, não sem me esboçar mais preocupações. O mundo perverso foi tirânico como uma navalha sobre a nossa jugular, ela havia sido sequestrada. Ela foi usada, foi drogada e foi maltratada por quinze horas. Quinze horas que eu não tive notícias dela, quinze horas que ela não sabia onde estava. Deus sabe o quanto eu, ateu convicto, rezei para que ela voltasse bem.

        Eu agradeço todos os dias por ela estar deitada na nossa cama dormindo como se nada tivesse acontecido, eu agradeço todos os dias por ela ter aparecido, mesmo que suja e chorando igual uma criança e me pedindo um abraço e que eu cuidasse dela. Não sei quem foi você que fez essa maldade com ela e não quero saber, eu te amaldiçoo por tudo de ruim que você fez ela passar naquele dia.

         Fui eu que a coloquei no banho quente enquanto cuidava de tranquilizar os amigos preocupados, fui eu que saí na noite fria para comprar comida sem ter tido tempo de me arrumar ou mesmo escovar os dentes. Naquele dia não consegui dormir, mas deixei ela confortável na nossa cama enquanto ela contava traumatizada toda a tortura e provação que passou naquele dia difícil. Desde aquele dia não fizemos mais amor, não porque eu não quisesse, mas meu amor por ela é muito mais do que sexo.

           Ela lutou por mim e nunca irei conseguir retribuir metade da força de vontade que ela teve por mim, então entendam, se não estou presente, se não estou sendo o que se espera de um filho ou de um amigo, apenas entendam: Eu estou cuidando dela. E todos os dias que me julgarem, pensem no quão delicado é saber que  a pessoa que você ama pode não estar viva amanhã.

           Deus, como eu agradeço por ela estar viva, mesmo depois de tudo que passamos juntos.  Agora, tenho que me juntar a ela nesse sono profundo que tão delicadamente me faz apaixonar por ela todos os dias, enquanto dormimos abraçados, nus, debaixo das cobertas pesadas nesse frio glacial que faz na cidade.