Acima do bem e do mal repousa todas as coisas que concernem a natureza humana.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Uma história do Capitalismo

         O capitalismo como sistema econômico de multiplicação de riquezas é com certeza o mais revolucionário da sua história, desde a época de Marx até os dias atuais, as empresas e as corporações enriqueceram de forma estratosférica na multiplicação de riquezas sobre a exploração do trabalho de homens e máquinas, mas também pelo capital especulativo das bolsas de valores.

          Embora o capitalismo mereça todas as críticas, devemos analisá-lo como um fenômeno histórico e nesse pequeno vídeo eu tento esboçar uma conjuntura histórica do capitalismo desde a Crise das Tulipas, passando pelo liberalismo, a Crise de 29 e o New Deal, as criptomoedas impõem desafios e por isso devemos analisar essa nova estruturação capitalista com calma.

       

Bitcoin: Considerações

           A Bitcoin é tida como a moeda do futuro, com o lucro estimado de 800% do ano passado para agora, a criptomoeda está sendo usada para pagamentos, contas e até mesmo pessoas estão recebendo salários em Bitcoins, mas essa nova moeda que parece ameaçar o sistema financeiro e os estados nacionais esconde negócios escusos desde sua interligação com a DeepWeb até a criação de uma bolha financeira.

           Meu receio quanto às criptomoedas não esconde também o interesse de um novo sistema monetário que virtualmente está além da inflação e dos choques cambiais, acompanhem o meu vídeo abaixo e façam considerações nos comentários. Esse é um tema delicado porque envolve dinheiro e muitas pessoas são sensíveis à essa parte do corpo humano, mas precisamos ser francos, a criptomoeda é uma tentativa de modernização do sistema capitalista.


sábado, 2 de dezembro de 2017

Novo canal

           Há muito tempo eu estava cogitando iniciar minha plataforma de youtuber, o blog não será descontinuado, mas essa é uma extensão do Troikamental e uma forma para trazer novos seguidores. Acompanhem o canal, embora esteja em nascimento, pretendo discutir uma enormidade de novos assuntos pelo Youtube.



         O nome do canal é Relógio Histórico, e o primeiro vídeo é sobre a Grande Depressão e a Crise de 1929. É um experimento, mas espero que vocês gostem e gostaria de agradecer pelos acessos do blog, ter leitores fieis sempre é uma mostra que vale a pena continuando com esse projeto de seis anos. O blog pode não ser muito divulgado, mas é enriquecedor saber que pude fazer uma certa diferença na vida das pessoas, mesmo que pequena.


       

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Sobre a censura no MAM

Eu Fui No Itororó


Eu fui no Itororó
Beber água e não achei
Achei bela morena
Que no Itororó deixei.
Aproveita minha gente
Que uma noite não é nada
Quem não dormir agora
Dormirá de madrugada.
Ô, Dona Rosinha!
Ô, Dona Rosinha!
Entrarás na roda
ou ficarás sozinha.

Sozinha eu não fico
E nem hei de ficar
Porque tenho sempre alguém
Para ser meu par.

Tira tira teu pezinho
Põe aqui ao pé do meu
E depois não vá dizer 
Que você se arrependeu!

Eu passei por uma ponte
Um cachorro me mordeu
Não foi nada, não foi nada
Quem sentiu a dor fui eu.

          A Batalha de Itororó foi um dos eventos mais importantes e melancólicos da Guerra do Paraguai, foi a primeira batalha da Dezembrada, uma sucessão de lutas e conflitos que ocorreu em 1868 entre brasileiros e paraguaios depois da queda da Fortaleza de Humaitá. Os brasileiros já estavam desgastados e estavam a caminho de tomar a capital paraguaia, Assunção.
Batalha de Itororó


          O rio Itororó é muito fundo, tem uma corredeira muito forte e foi realmente um desafio pros brasileiros as emboscadas e escaramuças com os paraguaios nesse terreno pantanoso, os homens estavam morrendo de sede por causa da cólera e da beri-beri, a água estava contaminada, e por isso essa cantiga começa falando que: "Que fui no Itororó beber água e não achei". Água nessa situação era crucial, e como os soldados não conheciam o terreno muitas vezes se perdiam no caminho até o rio.

         "Achei bela morena, Que no Itororó deixei", esse é o trecho que é preciso ter um pouco de cautela. Durante a Guerra, mulheres e prostitutas acompanhavam os soldados no acampamento brasileiro, comerciantes e caixeiros viajantes eram responsáveis pelo abastecimento e pela diversão, mas as prostitutas eram plenamente aceitas e faziam parte do cotidiano fora dos combates, então, sabendo esse acontecimento, temos que ter um olhar mais refinado para a canção, ela não é tão inocente quanto se imagina:

        "Aproveita minha gente/ Que uma noite não é nada / Quem não dormir agora / Dormirá de madrugada", essa modinha meio roceira parece ser inocente, mas o trecho se você analisa com outros olhos tem uma conotação sexual, de incentivo dos soldados ao sexo, uma noite não é nada, quem não dormir agora, dormirá de madrugada, então, os soldados estavam prestes a sair de manhã para mais uma das escaramuças contra os paraguaios, e violeiro, incentivava a eles aproveitarem a noite o máximo possível antes de serem mortos em combate.



           "Ô, Dona Rosinha! Entrarás na roda ou ficarás sozinha". Sim, isso é realmente o que você pode estar pensando, que rodinha é essa? Rodinha de viola ou roda com outras conotações, mesmo uma mente não tão suja pode ficar com dúvidas sobre qual sentido dessa frase, mas se a dúvida não foi suficiente, leia então a outra parte:


              "Sozinha eu não fico/ e nem hei de ficar/ porque tenho sempre alguém/ para ser meu par." Isso eu estou falando em 1868, quando a sociedade de costumes essencialmente católica valorizava mais do que tudo o recato das mulheres, com o silêncio inclusive feminino sendo valorizado como forma de beleza. Sendo como for, a interpretação que eu tenho ao ler isso considerando a conjuntura histórica é que Rosinha era uma profissional do sexo e falou isso justamente porque não importasse quem ficasse com quem, ou quem morresse, ela sempre teria alguém. Esse trecho é profundamente marcado pelo machismo e a misoginia característica desse período.

           "Tira tira teu pezinho/ Põe aqui ao pé do meu/ E depois não vá dizer  / Que você se arrependeu", trecho de dança ou instruções para o meio do coito? Fica um duplo sentido subentendido, quem se arrependeu do quê? De dançar ou de ter feito sexo? Tirar o pezinho e por aqui ao pé do meu, pode ser como disse no sentido de uma dança, como no sentido de uma acomodação dos membros do parceiro numa cama, é complicado não ter uma visão  corrompida desse trecho.

              Seja como for, pode parecer que as pessoas do passado eram mais recatadas, mais moralistas e tinham o costume de ter vergonha do sexo, isso é uma meia verdade, o sexo continuava sendo um tabu sim, mas isso não impede de certa forma que a sexualidade fosse abordada de várias formas, inclusive nas menos imagináveis, uma cantiga popular. Gregório de Matos era chamado de Boca de Lixo por seus versos incendiários contra o governador da Bahia, mas principalmente por seus versos pornográficos, que ao mesmo tempo eram de cunho religioso, eram exaltando o sexo, assim como o Decamerão de Boccacio.

           E Olavo Bilac, patrono do Exército, era conhecido pelos amigos por seus versos carregados de erotismo, um dos amigos inclusive chegou a dizer: "Muito anos coma a terra, para quem comeu muitos an*s". Vocês entenderam o sentido da frase. Caso não tenha sido claro, um verso de Olavo de Bilac:


Delírio
Olavo Bilac

Nua, mas para o amor não cabe o pejo.
Na minha, a sua boca eu comprimia
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
‒ Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!

Na inconsciência brutal do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos, mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.

Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda, quase em grito:
‒ Mais abaixo, meu bem! ‒ num frenesi!

No seu ventre pousei a minha boca,
‒ Mais abaixo, meu bem! ‒ disse ela, louca.
             Então, o príncipe parnasiano e um dos maiores defensores do alistamento obrigatório, um dos baluartes do republicanismo da virada do século XIX para o XX teve um lado erótico bem claro, sendo dessa forma posto, Olavo Bilac, inclusive filho de um oficial da Guerra do Paraguai, não pode ser creditado como a pessoa mais moralista do mundo.
Moralistas ‒ perdoai! Obedeci...



            Esse é o ponto que quero chegar, nossos antepassados faziam sexo, falavam sobre sexo e mantinham-se presos a certos tabus, o problema é que a geração moralista de agora ao falar do sexo em si, acredita que seja algo pecaminoso, carregado de erotismo e que perverte sobretudo os adolescentes e as crianças, a questão não é isso, a questão é a cultura da pornografia, as crianças estão sendo constantemente bombardeadas por uma cultura erótica, seja em comerciais de cerveja com mulheres com seios de fora, seja em filmes e séries que objetificam as mulheres como apenas máquinas do sexo, sem que elas possam ter opinião, sem que elas pensem, e apenas sejam submissas. A mulher não é só uma parceira do homem, se enganam os religiosos, a mulher tem igual importância ao homem, ou não, a mulher é ligeiramente superior ao homem porque ela consegue transformar uma casa em um lar, e um grupo de pessoas em uma família. Seja como for, o machismo ataca diretamente a sacralidade ancestral que a mulher carrega de ser a entidade mais importante da sociedade.

             Não estou advogando para que esqueçamos o sexo, acorrentemos as mulheres, coloquemos véu. Não é isso, estou falando para deixarmos de ser hipócritas, nossa sociedade sempre objetificou a mulher e a sexualizou, mas se escandaliza quando conteúdos sexuais caem nos olhos e ouvidos de crianças, seja numa exposição do MASP, seja num desenho animado.

             A questão é, as crianças realmente não devem ser expostas a isso porque elas precisam ter um pouco de inocência para não atrapalhar o seu desenvolvimento cognitivo, mas nós adultos fazemos pouco nesse sentido, nós incentivamos a sexualização com filmes sobre o primeiro amor, a Lagoa Azul é o maior exemplo disso. Uma menina de 14 anos aparece na tela do cinema e muita gente acha isso incrível. É horroroso pensar que um clássico da literatura seja Lolita de Nabokov, um cara doente de meia idade que molesta uma menina de 12 anos e tenta explicar o motivo de ter feito isso.

             Essa canção também é um exemplo disso tudo e foi cantada por gerações de mães e babás para crianças dormirem, isso tem que parar de certa forma, temos que parar com a cultura do sexo e da pornografia e deixarmos de ser hipócritas, não adianta nada censurar uma exposição se você continua cantando Itororó deixei para os seus filhos, mesmo que seja dois pesos e duas medidas.

               Olavo  Bilac continua sendo tratado nas escolas por sua importância literária, mas ele era um cara absolutamente sexualizado, assim como Monteiro Lobato era racista, e ainda fazem filmagens e refilmagens de sítio do Picapau Amarelo. Eu não concordo com uma criança estar numa exposição de arte com nudez, eu não concordo, mas fechar o museu não é a solução, quando existe sempre a tentação da internet que está entulhada de pornografia, a criança corre risco de verdade de ser exposta a isso.

                Um exemplo disso é minha irmã de nove anos procurando jogo para o celular na internet e esses sites de download abrindo uma segunda janela com uma página de pornografia quando ela só queria jogar um jogo da Barbie. É isso que devemos combater, essa exploração canalha desses adultos de meia idade que acham natural colocar uma segunda janela numa página infantil com conteúdo erótico. Se não formos sensíveis a isso e deixarmos o problema se prolongar, é bem possível que o seu filho tenha acesso a conteúdos ainda mais pesados, como zoofilia ou sadomasoquismo. Então, parem, não digam que a exposição apenas deve ser fechada, não fiquem olhando o navegador do seu filho achando que isso resolve, lutem contra esses fornecedores de pornografia que são tão covardes a ponto de sexualizar crianças, de colocar páginas anonimas em pesquisas e cometem crimes cibernéticos.

Resultado de imagem para internet e crimes virtuais
A internet é o maior desafio para a criação dessa nova geração super conectada

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

O assassinato de Kirov


Resultado de imagem para serguei kirov

         Serguei Kirov talvez tenha sido um dos entusiastas e políticos mais influentes do Partido Comunista, e se tornou a cerne de um dos maiores mistérios políticos em torno das muralhas de tijolos vermelhos da fortaleza do século XIV chamada Kremlin.


          Jovem, bem apessoado, esse homem de 48 anos de semblante atarracado era um líder popular, carismático e orador público de extrema eficácia. Seu rosto jovem e despojado de pretensões escondia um homem pacato e disponível às necessidades de todos e um vício incansável pelo trabalho. Era um homem do povo que saltava de seu carro para cumprimentar as pessoas na rua e que surgira do interior da Rússia.

           Serguei Mironovich Kostrikov nasceu na pequena cidadezinha de Urezhum em 1996, filhode um pequeno escriturário de pouca relevância. Apesar de suia condição de pobreza, levada pelo alcoolismo de seu pai, Kirov foi forçado a se tornar um homem voltado para os estudos. Quando perdeu sua mãe para a tuberculose, pouco podia fazer senão se arranjar na escola local e conseguir a sorte de ir estudar engenharia mecânica em Kazan. Onde se formou na virada para o novo século. Em 1904 mudou-se para a Sibéria gelada e aborrecida onde começou a militar pelo fervor revolucionário da Revolução de 1905, sendo logo um bolchevique.

             Preso,  dedicou-se à leitura e adorava escrever, isso o fez se tornar posteriormente jornalista de um jornal liberal de Vladikavkaz. Bolchevique, mas não amante do terror revolucionário. Era um apoiador da revolução por acreditar no progresso do socialismo. Envolveu-se com Stálin na guerra civil e essa amizade estranha o levou ser um estandarte da causa bolchevique.

           Popular e jovem, participou da campanha de coletivização do trigo em honra à construção de um novo país industrial e forte (que sem saber estava sob a matuta das botas de cano alto de um Stálin cada vez mais paranóico). Foi chefe do Partido no Azerbaijão e em 1926, após reconfigurações partidárias, se tornou braço direito de Stalin em Petrogrado.

            Kirov aceitou a função com destreza e a amizade com Stálin. Contudo com passar dos anos, já doente e cansado, Kirov desejava caçar e dormir nas barracas de lona no interior ao invés de passar todos os finais de semana nas reuniões intermináveis na datcha de Stalin. O jovem Kirov por vezes queria fugir: "Estou entendiado aqui. Em  nenhum momento posso ter férias tranquilas. Ao diabo com isso".
Kirov e Stalin nos anos 30

           Opositor do terror contra os trabalhadores em prol da realização das mirabolantes cotas dos Planos Quinquenais, Kirov se tornou uma "oposição surda", um foco de resistência ao NKVD. E suas memórias foram esquecidas quando passou a ter que tomar um papel mais proativo em Petrogrado.Após uma plenária do Partido Comunista realizada no dia 28 de novembro de 1934, Stálin acompanhou pessoalmente Kirov até o trem Flecha Vermelha com destino a Leningrado, abraçando-o antes de sua partida. No dia seguinte estava na antiga capital imperial

          Kirov passou a maior parte do dia 1° de dezembro de 1934 em casa preparando um discurso que faria à noite. Telefonou várias vezes para o comitê distrital e para alguns de seus adjuntos antes de telefonar às 16 horas para a garagem, no subsolo do seu apartamento, pedindo um motorista. Planejava passar no Smolny, bastião da Revolução de Outubro, para se preparar antes de seguir para o Palácio Taurida onde faria um discurso à 18 horas.

         Deixou a casa imediatamente e foi a pé até a ponte Troitski, onde o motorista, F. G. Erchov, o apanhou e o levou para o Smolny. Chegando ao Instituto Smolny, onde outrora Lenin, Trotsky, Kamenev, Zinoviev e e outros revolucionários 17 anos antes tinham orquestrado os pormenores da Revolução de Outubro, Kirov  subiu as escadarias do instituto e conversou com alguns colegas, sozinho, não percebeu que estava sendo seguido. Kirov levava uma pasta com documentos importante e um chapeu de pele na cabeça.

        O segurança tinha ficado nas escadarias, enquanto o dirigente comunista se encaminhava para a sua sala, Leonid Nikolaiev apareceu de surpresa, ele que tinha ido ao banheiro, ao ver Kirov no corredor, andou de maneira furtiva por trás do busto de Lenin, por trás da batente da porta, ele disparou o seu revolver Nagant na nuca de Kirov. Um crime sorrateiro, sem testemunhas e sem reação. Aquele crime iria mudar para sempre a URSS.

Kirov foi embalsamado para ficar em exposição por três dias antes de ser enterrado em Moscou.
         Stalin recebeu o telefonema de Leningrado, Kirov tinha sido assassinado. Foi o primeiro assassinato dos  Expurgos e esse crime seria a causa de toda a onda de terror contra lideranças, militares e artistas, mas principalmente, inocentes por toda a União Soviética. Kirov, a flor e a gênese da juventude comunista da URSS tinha sido brutalmente assassinado de forma traiçoeira.

         Stalin pegou o Flecha Vermelha no outro dia, colocou Molotov, Voroshilov e Yagoda dentro do trem e acompanhou pessoalmente as investigações, além de ser líder do Partido, Kirov era seu amigo, eles tinham passado as férias juntos na Geórgia não fazia muito tempo atrás. Aquela morte machucou o coração de Stalin, tanto quanto a morte de sua segunda esposa Nadja Alliluieva, que se suicidou alguns anos antes. Com botas pesadas de couro, o bigode e as marcas de varíola, Iossif Vissarionvich beijou a testa do amigo, enquanto via Leonid Nikolaiev ser interrogado pelo NKVD.

         Não sabia de nada a não ser que provavelmente Nikolaiev matou Kirov porque ele estava sendo traído pela esposa com o comissário. Nada parecia indicar um crime passional, mas Stalin, vendo as incongruências do processo logo ligou o crime a ninguém menos que Grigori Zinoviev, antigo líder do Partido em Leningrado, removido por fazer críticas ao próprio Stálin.

           Zinoviev, Kamenev e Stalin tinham formado uma troika, um governo de três, após a morte de Lenin, a questão é que eles achavam que Stalin poderia ser manobrado e foi justamente o contrário o que aconteceu, Stálin era a máquina partidária, em uma aliança com o líder proeminente Nikolai Bukharin, púpilo de Lenin, e "téorico do Partido" ele liquidou a oposição e se tornou o líder supremo.  A União Soviética se desenvolveria com as mãos de ferro de um novo líder. A NEP logo foi abolida e se iniciaram os planos quinquenais, os kulaks, camponeses  de classe média, ofereceram resistência à coletivização, a Ucrania quase entrou em guerra civil. Essa era a  nova União Soviética.

           Foi quando Kirov foi morto.


          Depois disso, as prisões, as delações e as conspirações começaram, As pessoas passaram a ter medo e a não poder criticar abertamente o Partido, deportações, julgamentos-espetáculo, e mortes. O NKVD passou a fazer prisões em massa e aquele país que era um sonho socialista passou a matar seus próprios construtores: Primeiro Zinoviev e Kamenev, depois foi Yagoda, ex-chefe do NKVD, e agora seria Bukharin. "Koba, por que precisa da  minha morte?", escreveu Bukharin em um bilhete para Stalin. 

        Por sete anos a URSS passou de uma republica de sonhos a um regime totalitário. As marcas desse crime nunca serão descobertas, mas de certa forma, esse crime em 1° de dezembro de 1934 acabou assassinando um país inteiro pelo medo; Stalin carregou o corpo do amigo pelas ruas de Moscou quando voltou de Leningrado, algo havia mudado, enquanto ele caminhava no Kremlin, até o cemitério dos revolucionário na muralha norte, ele sabia que a partir daquele dia a URSS não seri mais a mesma.


Conto de meia noite

          Numa dessas confluências da vida, quando a noite se prolonga mais do que o dia e a escuridão se adensa em nossos olhos a figura sinuosa de uma pessoa é um acalanto para uma mente carregada de preocupações. De fato nada pode ser considerado mais irresponsável do que se fechar para um mundo carregado de memórias e experiências

          As luzes fracas dos postes de cimento mal lavado carregavam a noite com uma luz artificial amarelo-magenta que faz com que cada reflexo no espelho de um asfalto récem molhado pela chuva tenha sido construído uma lâmina de prismas monocromáticos.   Prismas constituídos de flashes e trade-in, ou talvez só meros vazios nas lacunas da vida, mas o sentido epírico dessas palavras não pode ser traduzido apenas pela pena e pelo papel, mas pelo sentimento que corre em nossos corações e os pensamentos em nossas cabeças;

           Mas não tecerei versos carregados de fonemas carregados como Maiakovsky, essa história cotidiana e deveras suburbana é digna de ser colhida num único momento e piscar de olhos de você caro leitor. “Acaso devo carregar-me de poesia ou devo ler Guerra e Paz?”, deve estar se perguntando ao olhar o catatau de Tolstói.



         Seus olhos eram escuros e intensos, honestos e tão românticos que me preenchiam de pensamentos. Não, essa não era a meta, apenas tentar viver um dia de cada vez. Seus cabelos eram negros como a noite, e de seus lábios caíram palavras desencontradas cuja entonação não se ouvia diante os ventos frios, carregados do peso da noite:

Não ouvi no jardim mesmo os pássaros
Tudo aqui é parado até de manhã.
Se você soubesse como você é querida para mim
Nas noites frias de outono

O rio está em movimento e ainda parado,
A lua cor de prata.
Nos brinda com uma canção pode ser ouvida
e não pode ser cantada  
Nessas noites calmas.

Onde você está querida que me olha de soslaio?
Estará dormindo ou apenas enfeitiçada?
É difícil de expressar
Tudo o que está no meu coração.

Uma madrugada de verão
Olhei  para o jardim
E encontrei a lua
E me apaixonei por você

E o silêncio  é mais perceptível ...
Então, por favor, seja gentil,
Não esqueça daqueles dias de verão
Parados como você e eu.


Seus versos eram irresponsáveis, como os de um adolescente numa cântiga de verão e pior, ele tropeçava de soslaio, caía de maneira inesperada no chão e se contorcia num esforço inútil para levantar. Sua vida era mais do que simples álcool e poemas mal escritos mas a lembrança de um passado lhe soava meio incongruente.

“Como falarei com você? Como terei coragem em pegar o seu telefone e não falar contigo, de esquecer o seu rosto e mais do que isso ainda me martirizar por ser tão tolo a ponto de não querer me apaixonar?”, pensou como um bom mujique.

Bom, ele tentava se lembrar de como era não querer se apaixonar, de encarar as pessoas como meras marionetes no jogo de xadrez e manipulá-las a plena vontade; Ou melhor, pôker, porque ele gostava da sensação de ganhar e perder dinheiro com a mesma facilidade com que trocava de roupa.
Sabia como ninguém o que um par de rainhas representava.  Mas ela era mais do que simples cartas, ela era de carne e osso. Meiga e nem um pouco dada ao seu passado de boemia. Escutava-lhe o vento e um cachorro mal-tratado que mordiscava um hot-dog estragado.
O frio batia em sua capa. Um guarda de soturna expreitava os doentes, e a lua crescia celestialmente entre os prédios de tijolos vermelhos. Desenrolou um pedaço de papel no bolso


“Você é meu amor e destino!
O destino não é fácil. O amor é duro, mas é de verdade.
Pois estamos prontos a sacríficios
Nós todos experimentamos mais de uma vez,
O que é se apaixonar todos os dias
Nosso outubro, a todo velocidade!
Com a gente, a canção de corações vermelhos,

Apressam os nossos anos, mas a vida é jovem!
E canta como antes tubo.
Você meu amor, você está sempre em guarda!
Me esperando no coração


Hoje me sinto infantil para não ter escrito nada disso para você, apenas ter brincado de flertar com você que me escutava com tamanha atenção sem reclamar de nada a respeito. Onde você vier estarei contigo.

Tenho medo de trazer vários dos meus medos no papel, mas tenho o medo maior de deixar o tempo passar. Somos tão irresponsáveis para ignorar o dia?”

Caiu no chão com uma vontade narcisista de ser o imperador do mundo e por um momento sentiu-se Napoleão em pessoa, saltou em cima de uma moto parada e tomou um ímpeto dadaísta de  gritar “ Vive la France!” e sair pela cidade fazendo barbaridades.

Correndo sob tropeções começou a abraçar os passantes, correr atrás de carros inutilmente, ir mijar nos cantos mais abusrdos e casar-se com um poste de telefone. Correu do guarda, do cassetete e correu. Correu, correu, até gritar para todo mundo: Eu a amo.


No meio de uma dessas caiu de cara na mesa onde jogavam damas dois mendigos, que roubaram sua carteira, e bem mais que sua dignidade. Vomitado, passou maus bocados lá pelas três da manhã quando um cachorro mijou em suas pernas e lambeu seu rosto.




Os ônibus saiam vazios, e naquela noite de apuros, ele ainda se lembrou que foi correr atrás de briga com dois bombadões de academia. Quando acordou, não se lembrava de nada. Muito menos onde estavam suas calças, mas ele estava abraçado a um cachorro com o rosto plenamente vomitado e a roupa suja de vomito. A manhã de segunda feira foi meio complicada para o nosso jovem anti-herói que além de ter perdido sua dignidade, perdeu o papel com o telefone. Mas que inferno! Que ressaca!